Após estudar a lateralidade no tênis em 2014, na academia do espanhol Jofre Porta, descobri que esse tema pode ser muito útil para professores e técnicos, ajudando na melhora do desempenho dos jogadores. Porta, importante dizer, é conhecido mundialmente como um dos principais treinadores na formação de atletas – Rafael Nadal e Carlos Moya foram dois de seus pupilos – e me ajudou no aprofundamento do assunto.

Lateralidade é analisar o corpo como um todo e ter o domínio de um lado sobre o outro. Em outras palavras, podemos conceituá-la como a organização do nosso corpo e o espaço, usando como referência os olhos. O olho dominante enxerga 13 vezes mais do que o outro e isso faz toda a diferença no tênis e na lateralidade. Se você ainda não sabe qual é o seu olho que vê melhor, faça o teste. Junte as duas mãos, deixe um buraco entre elas e visualize um ponto fixo. A partir daí, peça para alguém fechar um dos olhos, depois o outro. O olho que você enxergar esse ponto fixo será o dominante, aquele que vê com mais precisão a bola de tênis.

A lateralidade serve para o professor e o treinador terem condições de fazer um trabalho aprofundado com atletas ou até com o aluno amador, que às vezes está fazendo posição que não é a ideal. O olho dominante deve estar sempre perto da bola e isso, por consequência, influencia no posicionamento do jogador.

A maioria dos tenistas aprende a ficar de lado para fazer a batida e não muda de jeito nenhum, gerando um grau de dificuldade maior para executar o golpe em certas ocasiões. Por exemplo, o destro que possui o olho direito como dominante deve se posicionar mais de frente para bater a bola que vem na direita, para que tenha a visão precisa da esfera. Sabendo qual é o olhar dominante e trabalhando com ele, o desempenho do atleta pode ser aperfeiçoado em até 60%. Na academia do Jofre, ele faz o teste da lateralidade com garotos de 10, 15 anos que chegam lá e na sequência já fala com os técnicos para treiná-los em cima disso.

Há dois tipos de olho dominante: o homogêneo e o cruzado. Os homogêneos são os que têm o olho dominante direito e são destros. Já os cruzados, como por exemplo o Roger Federer, são aqueles com o olho dominante esquerdo e destros. O conceito é igual para os canhotos.

Essa informação tem relação com a característica tática, técnica e psicológica dos tenistas, podendo ser trabalhada nos treinamentos.

Hoje um sacador igual ao Federer, com o olho esquerdo dominante e que bate com a direita (que é um cruzado), saca melhor do que um homogêneo na maioria das vezes. O homogêneo não pode ficar muito de lado para fazer o saque, porque senão o olho (dominante) dele foge da bola. Mexe com o posicionamento, por isso muitos com esse perfil apresentam dificuldades. O homogêneo tem que sacar mais de frente e lançar a bola perto dele, usando mais o efeito. Isso é estudo, o olho esquerdo (dominante) tem mais facilidade do que o homogêneo nesse momento do jogo.

Sendo assim, olhando pelo viés tático, os homogêneos jogam atrás da linha, gostam do contra-ataque, a direita paralela e a esquerda cruzada são mais naturais, além de gostarem da troca de bolas e serem regulares. Já os cruzados apresentam características opostas: jogam mais dentro da quadra, são agressivos, a direita cruzada e a paralela de esquerda são os golpes naturais, além de serem, em demasia, imprudentes, habilidosos e criativos. Em suma, arriscam mais em quadra. A esquerda do homogêneo é melhor do que a direita, enquanto a direita do cruzado é o ponto forte.

Psicologicamente – outro fator com peso na lateralidade -, o cruzado se diferencia pela criatividade, improviso e é mais desorganizado. Os homogêneos, por sua vez, controlam melhor as emoções e também se organizam melhor.

Todas essas informações são fruto de anos de estudos e prática dentro de quadra, foram utilizadas por grandes treinadores e estudiosos, em especial fora do Brasil, e é uma arma para treinar com qualidade os jogadores de alto nível. O técnico deve fazer exercícios específicos para o tenista ficar mais de frente ou de lado, para estimulá-lo e aí o próprio atleta vai percebendo a diferença. Por exemplo, a bola anda mais no saque conforme o posicionamento feito, de acordo com o olho dominante, e o praticante vê melhor a bola consertando esse posicionamento, fatores que interferem diretamente na técnica.

Taticamente, se o atleta descobre o olho dominante do oponente, leva vantagem. Se ele abrir o homogêneo para o lado direito da quadra, naturalmente a bola voltará para a paralela ou no meio (pelo fato de o homogêneo ter a visão concentrada nessas áreas) e aí ele já pode se antecipar na jogada.

A lateralidade não é 100% verdadeira, mas os números mostram que ela varia entre 70 e 80%, ou seja, são elevadas as chances de esse fator ter relação direta com o desempenho no tênis. Nos estudos feitos por 15 anos, Jofre Porta fala muito sobre isso, sobre como o posicionamento, a parte psicológica e tática têm muito a ver com o olho dominante. A lateralidade também possui ligação forte com os últimos jogadores que trabalhei, ajuda bastante. Poucas pessoas sabem desse assunto no Brasil. Os professores e técnicos de alto rendimento já deveriam olhar para esse lado, para fazer a identificação e preparar um plano de trabalho para seus atletas.


Ricardo Coelho é treinador na área de competição do clube Hebraica, Tênis Clube de Mogi das Cruzes e Tênis Clube de São Caetano. Na função de técnico, viajou para três torneios Grand Slam com Júlio Silva, Rogério Dutra Silva e a argentina Maria Argeri. Formou-se em biomecânica aplicada ao tênis, em curso internacional da ATP e nos cursos de níveis 1, 2, 3 e 4 da CBT e ITF.


 

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