Aos 34 anos, Rogerinho é aplaudido por onde passa, recebe elogios de craques do tênis e ‘carrega’ legado de exemplo para os jovens

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Foto: Gaspar Nóbrega / DGW Comunicação

Há maneiras distintas de se avaliar os resultados e a carreira de um jogador. O erro é ignorar o contexto, achar que apenas os títulos interessam. No Brasil, em se tratando de tênis, a matemática não traduz a realidade – afinal, os números escondem informações relevantes. Vamos falar de Rogério Dutra Silva. Em Roland Garros, caiu na primeira rodada, apenas mais uma eliminação de um tenista do país no começo de Grand Slam. Poderíamos terminar essa história por aí, mas e as três vitórias fáceis no qualifying, o adversário na derrota citada, um tal de Novak Djokovic, os elogios do próprio sérvio ao final da partida (chamando Rogerinho de grande lutador) e os aplausos de pé do público presente na quadra central?

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Foto: Marcelo Zambrana / DGW Comunicação

Na verdade, a participação em Paris não muda a carreira do paulista, apenas reforça quem ele é no tênis e dá motivação para a sequência da temporada. O título da reportagem, “Número 1 dos brasileiros”, que é a mensagem que queremos transmitir, tem relação com o legado que Rogerinho já passou aos jovens que acompanham a modalidade (e para aqueles que jogam e também pretendem seguir carreira).  Dutra não gosta de expor os problemas que enfrentou para estar atuando em alto nível, com 34 anos. Abomina usar o passado sofrido para justificar derrotas. Já disse que torce para que outros não copiem muitas coisas que teve de fazer para se consolidar no circuito profissional, em que chegou a ocupar a 63ª posição em 2017.

Rogerinho só volta ao tempo para explicar por que demorou a deslanchar. “Minha carreira foi bem diferente das outras. Pela questão financeira, o primeiro técnico que tive foi com 24 ou 25 anos, sendo que com 17 o pessoal já tem toda uma equipe por trás, com preparador físico, psicólogo. Não joguei juvenil, então minha carreira também é mais tardia por esse fator”, recorda o jogador, em entrevista exclusiva à Winner ABC logo depois de Roland Garros. Já como profissional, inclusive, deu aulas e foi rebatedor para bancar viagens.

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Foto: Ricardo Moreira / DGW Comunicação

Ricardo Coelho trabalhou com o paulista entre 2006 e 2008. Por um pedido de Júlio Silva, que era seu pupilo, o treinador abriu as portas para Rogério Dutra – à época, sem clube. “A grande virtude dele é a persistência, não desiste de nada e é muito focado em objetivos. Naquele momento, faltava maturidade tenística a ele, porque não tinha condições de disputar torneios fora, de ficar um tempão na Europa. Isso pegou”, lembra Coelho.

O técnico diz que acreditava no crescimento de Rogerinho pelo fato de, no linguajar do tênis, ele ter bola, bons golpes. Os ajustes foram feitos principalmente na esquerda. “Essa bola de esquerda sobrava mais para o adversário atacar. Fizemos leve alteração na empunhadura e exercícios de estímulo neural, para gravar a nova informação e tornar o processo mais rápido. A preparação não era adequada, fizemos trabalho de giro de tronco pensando na preparação do golpe mais rápida. Era fácil trabalhar com ele porque aceitava a mudança”, revelou Ricardo Coelho, que hoje comanda o tênis no Hebraica. “Sou muito grato por ter treinado o Rogério, aprendi muito com ele, de saber escutá-lo”, completou.

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Foto: Gaspar Nóbrega / DGW Comunicação

O tênis de Rogerinho se desenvolveu com o passar dos anos e entrou em outro patamar com idas frequentes à Argentina. É no país vizinho que realiza períodos de treinamentos. Com o argentino Carlos Perez, por exemplo, ele não esconde que adquiriu massa muscular e potência.

“Não faz tanto tempo assim que consegui ter uma equipe para todas as áreas. Foi fundamental, hoje o nível está muito próximo e se não estiver fazendo tudo de maneira minuciosa, é difícil. Isso (acompanhamento) está me auxiliando a estar bem na idade atual”, opinou o brasileiro. “Minha estrutura é parecida com a dos outros atletas. É óbvio que não dá para levar todos para os torneios, é um quebra cabeça na hora de viajar. Vai um, fica o outro, para não ter muita gente e o gasto não ser alto”, pondera.

Sobre a preparação, Dutra afirma que treina mais depois dos 30 anos, sem deixar de respeitar o corpo. “Acho que estou fazendo mais coisas. Quanto mais você faz, desde que coordenado e focado, é melhor. Claro que muda com a idade, faço mais prevenção”, comentou o tenista de Santa Barbara D’Oeste, que fica pouco tempo em casa.

“Lembro que fomos para Wimbledon em 2007. Ele só tinha feito um ou dois treinos na grama e venceu na primeira rodada. Ali, ele já mostrou que seria um jogador de todas as quadras. Depois isso se confirmou”


QUASE LÁ

Em 2018, por duas vezes Rogerinho ficou perto de fazer a primeira semifinal de um ATP na carreira, no Brasil Open e em Istambul. Nesse último campeonato, na Turquia, abriu 4 a 0 no terceiro set, mas perdeu o ritmo e o duelo para o japonês Taro Daniel nas quartas de final. “Avalio a temporada como boa, venho jogando bem os torneios ATP e os Grand Slam. É ficar firme que a semifinal vai aparecer. Faltou um pouco de tudo (contra Taro Daniel), de azar, de ele ir bem na hora que precisava e eu não, mas é continuar com foco que em algum momento vai vir”, aposta o brasileiro.

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Foto: Gaspar Nóbrega / DGW Comunicação

Rogério Dutra Silva relaciona o tênis ao xadrez, justificando que criou uma espécie de base de dados com características dos adversários. “Você tem que saber a hora de atacar, defender, encurralar, passar mensagem para o oponente de como você está. Analiso os rivais por meio de vídeos, conversando com a minha equipe, é importante observar onde o cara gosta de jogar a bola na pressão”, enumera. Questionado se a idade ajuda, afirma que é relativo. “O fato de estar há bastante tempo no circuito é bom em alguns momentos, mas a molecada que está vindo não se preocupa com isso, por não pensar muito nessa idade e soltar a mão. Por outro lado, eles não têm experiência em períodos cruciais do jogo.”

A campanha em Roland Garros embalou Rogerinho. “Fazer três sets duros, com break na frente, diante de um tenista do nível do Djokovic, é muito legal. Nunca tinha conseguido jogar um nível alto de tênis por tanto tempo”, revelou ele, sem pensar em aposentadoria.


O LEGADO

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Foto: Marcelo Zambrana / DGW Comunicação

Depois de todas as dificuldades, o pior parece ter passado para o tenista querido pelos brasileiros, mas a independência financeira ainda está longe. São poucos apoios para quem já deixou um legado para o tênis nacional, de que é necessário lutar, pagar o preço, dar de fato tudo que tem para obter sucesso na carreira.

“Faz muito tempo que não gosto de reclamar, tenho que trabalhar firme e forte. É assim que consegui os patrocinadores atuais, é a maneira que gosto de pensar.”


“A garotada tem 23 anos e acha que é velha”, critica

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Foto: Leandro Martins / DGW Comunicação

Na condição de referência para os jovens tenistas, Rogério Dutra Silva vê a fase de transição mais longa no tênis atual e pede paciência.

“O conselho para os mais jovens é persistir. Hoje, a carreira do tenista é mais longa do que antigamente, daí também a transição ser mais demorada. Antes, com 17, 18 anos, muita gente já estava ganhando Grand Slam e agora não é assim”, compara Rogerinho, exemplo de amadurecimento tardio. “Tem de ter paciência, às vezes a garotada tem 23 anos e acha que é velha. Pensando nesse aspecto, todos os envolvidos no tênis precisam apoiar os jogadores.”

A crítica do paulista também recai no planejamento feito durante a transição, em que os torneios profissionais devem ser priorizados. “Às vezes acho que os juvenis esquecem um pouco do profissional, mas não é preciso esperar fazer 18 anos para jogar esses campeonatos, claro, respeitando o corpo. Por isso é mais difícil para os brasileiros esse momento. O fato de eu não ter disputado juvenil me fez  madurecer rápido”, analisou.

A entrevista com Dutra também foi uma oportunidade de entender porque os argentinos levam vantagem sobre nós. “Você tem muitos atletas para treinar em uma área muito pequena, com qualidade boa. Isso faz muita diferença. A troca de informação é mais constante”, contou o tenista profissional, lamentando que o tamanho do Brasil atrapalha, em partes, no desenvolvimento da modalidade.

Quando se fala em Argentina, o público que assiste o tênis se lembra da conquista recente da Copa Davis pelos hermanos. Sonho quase impossível para os brasileiros, que não devem ter mais Rogerinho na competição. Preterido em convocação no passado, ele descarta o evento por ora.

“Ainda estou priorizando meu calendário de ATP, não estou pensando muito em Copa Davis. Os  resultados (recentes) não foram bons, mas a equipe brasileira vai melhorar. É normal. O país está passando por mudanças (na equipe), sempre foram os mesmos, com a idade vai trocando, é normal a situação.”

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