Em novo momento na carreira, Orlandinho volta a ser campeão e já imagina ‘bons jogos’ contra tenistas no top 100

A forma como é tratado o tênis no país favorece o desperdício de talentos. Jovens ficam pelo caminho sem atingir o auge em todos os aspectos que envolvem o jogo, muito em função da nossa cultura de se cobrar resultados imediatos. A pressão faz parte do esporte e tem de ser administrada pelo tenista, claro, mas é inegável que atrapalha quando passa do ponto. Muitas vezes, os patrocinadores só aparecem depois que o pior da carreira do atleta ficou para trás – no momento das vitórias. Entre os brasileiros no ranking da ATP, nenhum jovem está tão bem posicionado quanto Orlando Luz. Ele tem apenas 20 anos, mas “pagou o peço” por ter sido o número um do mundo no juvenil. Já chegou até a ser taxado como falsa promessa. Não deslanchou de imediato no profissional e sofreu série de lesões, porém, com apoio de profissionais capacitados e um centro de treinamento de ponta em Barcelona, na Espanha, Orlandinho voltou a ser campeão em 2018.

Oriundo de família humilde em Carazinho (RS), de onde saiu quando criança para tentar a glória no esporte, o tenista aceitou novo desafio e está na BTT Tennis Academy desde o início do ano. Os treinos são na academia fundada por Francis Roig, técnico de Rafael Nadal, graças à parceria feita pela CBT (Confederação Brasileira de Tênis). A despeito do apoio da entidade, a retomada de Orlandinho passa pelo seu treinador, Leo Azevedo, que já trabalhou por quase uma década na USTA (Associação Norte-Americana de Tênis) e acumulava experiência anterior na Espanha, na academia de Juan Carlos Ferrero.

“Saí de uma família muito humilde, de uma pequena casa em Carazinho pra hoje estar onde estou, tentando buscar os sonhos que ainda quero alcançar”

“O Orlandinho chegou aqui (Espanha) um pouco acima do peso ideal dele. Fizemos muitos testes para saber o que era necessário, porque ele é um cara forte. A primeira novidade no início foi colocá-lo em uma boa forma física. Também quis colocar as minhas ideias como treinador, o que eu penso sobre tênis e o que eu achei que ele podia fazer na pré-temporada. Houve essa preocupação de moldá-lo fisicamente e, a partir daí, algumas ideias táticas, de maneiras de jogar”, explica Leo, que, junto do pupilo, deu entrevista exclusiva à Winner.

A prioridade foi em cima do trabalho de prevenção de lesões, em decorrência do histórico recente. “Isso ajudou bastante, já venho há oito meses treinando e jogando e nenhuma lesão apareceu. A parte física é bem mais puxada, há sempre atividades de resistência na quadra. É por isso que estou conseguindo fazer vários jogos seguidos, com bons resultados”, comemora Orlando Luz, admitindo que não esperava essa evolução rápida. “O Leo tem uns treinos diferenciados, sabe extrair o que o tenista tem de melhor. Cada um tem seu estilo e ele sabe lidar bem.”

“Eu acabei ficando um pouco para trás depois que saí do juvenil. Mas agora estou voltando a me sentir bem, alcançando resultados. O nível de tênis aumentou e estou feliz porque estou me encontrando de novo”

Sobre a parte tática, Leo disse que estimulou o pupilo a jogar mais perto da linha e ser agressivo com o saque, junto da ideia de buscar bastante a direita. “Pedi para que ele não usasse o serviço apenas como forma de iniciar o ponto, mas como uma forma de finalizar, de poder terminar na segunda bola porque estava muito conservador. Para melhorar esse fundamento, mexemos um pouco no toss e no giro do ombro, apenas pequenos ajustes. Trabalhamos também a devolução”, enumerou. Os resultados não demoraram a vir, inclusive a primeira final depois de um ano – diante do parceiro de treinos Felipe Alves. Depois, enfileirou dois títulos de Future em simples. Ao lado do próprio Felipe, foram mais quatro em duplas.

“Minha avaliação é que a temporada está sendo muito positiva, que a mudança do Brasil para a Espanha deu certo. Estou colhendo os frutos já, subindo mais de 300 posições no ranking no primeiro semestre”, avaliou o jovem tenista, que nessa reta final de temporada foca na disputa de challengers.

Na opinião de Leo Azevedo, a decisão de morar fora do Brasil por si só transmitiu força mental a Orlandinho e a confiança voltou com os resultados. “Fiz ele ver que dependia de si próprio e do trabalho para sair dali e chegar no ranking que acha que deve estar. Ele conseguiu buscar a melhora, a evolução, e quando as vitórias começaram a chegar, a confiança subiu também. O jogador de tênis é movido pela vitória”, analisou o técnico. “Venho buscando evoluir de forma que eu consiga sair de situações difíceis dentro de quadra de forma mais simples, tentando achar um modo diferente de chegar no meu máximo naquele dia”, acrescentou o ex-número um do mundo juvenil.

Orlando Luz admite que, se tivesse saído mais cedo do Brasil, poderia estar em um estágio mais avançado da carreira. “Acho que treinar no Brasil me atrasou um pouco pela quantidade de torneios que eu podia disputar. Essa mudança para a Europa me fez entender que é muito importante você jogar três campeonatos, voltar, treinar duas semanas, estar preparado para os próximos três”, justificou.

“Gosto que o tenista tenha bom posicionamento em quadra, é importante treinar o começo da jogada. Alguns podem jogar mais com o instinto, outros menos, mas o importante é o jogador saber o que fazer taticamente na quadra, ter algumas jogadas preparadas”

Bom trabalhador


Na condição de um dos donos da BTT Tennis Academy, Francisco Roig, que é um dos técnicos de Rafael Nadal, acompanha Orlandinho toda semana. Conforme revelou Leo Azevedo, Roig costuma dizer que o tenista de Carazinho é um “bom trabalhador”. “Na pré-temporada, o Roig viu alguns vídeos do Orlando e definimos alguns pontos para trabalhar. Está envolvido”, conta Leo.

Nessa equipe de trabalho é unânime a visão de que Orlandinho se aproximou dos melhores do mundo, mas todos reconhecem que há um longo caminho ainda para ser percorrido. O tenista, inclusive, já se vê fazendo bons jogos com integrantes do top 100.

“São etapas que ele precisa passar. Já passou uma etapa importante, vamos ver se no final do ano consegue se consolidar nos challengers. Crescendo em todos os aspectos, o ranking vem. Falei para ele: ‘você acha que esse é o seu ranking?’. A resposta foi não. Também acho que tem mais para subir”, acredita o treinador, que ajudou a alterar o rumo da carreira de Orlandinho. “Não faço comparações com ninguém, muito menos falando sobre alguém que tem 20 anos. Cada um é cada um. Tem gente da época de juvenil do Orlando que está brigando pelas primeiras posições, tem gente que foi para o tênis universitário, tem gente que está com ranking pior. Cada um tem seu desenvolvimento, seu tempo. Não acho que o ranking atual dele seja ruim para a idade atual. Os outros que estão lá na frente são fora da curva”, cravou.

“Claro que ficar longe da família, amigos, namorada, é difícil, dá saudade, mas também me motiva para trabalhar porque eu sei porquê estou aqui. Deixei tudo isso lá e estou fazendo de tudo para alcançar e tenho que fazer valer a pena cada minuto que estou longe das pessoas que gosto. Trabalho gera valor e é o que soluciona no final”, avisa Orlandinho, com convicção para conquistar mais títulos.

Westrupp: Parceria vai até o fim da temporada, mas pode ser renovada

A ida de Orlando Luz para a Espanha foi viabilizada após parceria feita entra a CBT (Confederação Brasileira de Tênis) e a BTT Academy. O acordo vai até o fim da temporada, mas pode ser renovado. É o que garante o presidente da CBT, Rafael Westrupp.

“No final de 2018 teremos as avaliações para renovar por mais um ano a parceria e, assim, sucessivamente. Os valores são confidenciais por contrato”, comentou o dirigente.

No momento, pelo acordo com a BTT, apenas Orlandinho e Felipe Meligeni estão na academia full time. Se achar necessário, a entidade que comanda o tênis brasileiro tem a possibilidade de enviar outros atletas para passar um período no local, considerado um dos principais centros de treinamento da Europa, com 16 quadras de saibro, e que recebe tenistas importantes – o português João Souza treina na academia.

“Os resultados alcançados são bem satisfatórios. Primeiro é a evolução técnica dos atletas, o rendimento, o amadurecimento e, por fim, os resultados que vêm tendo nas competições. Os dois, inclusive, obtiveram o melhor ranking de suas carreiras profissionais em sete meses desta experiência na Europa”, enumerou Westrupp, salientando que os tenistas têm tudo de mais avançado na BTT.

Questionado se a CBT poderia fazer um centro de treinamento semelhante no país, o presidente da Confederação afirmou que não é viável no momento. “Pela sua localização, na Europa, a BTT é estratégica para logística de participação nos grandes torneios e serve como base de apoio aos nossos atletas na gira europeia”. Perguntando ainda sobre projetos paralelos da entidade na busca do desenvolvimento dos jovens, citou o bolsa atleta, programa de transição juniors pro (em que os juniors acompanham os profissionais em competições pelo mundo) e apoio aos jogadores dos centros de treinamento Tennis Route, Itamirim Clube de Campo, Time Guga e equipes de sul-americanos e mundiais 12, 14 e 16 anos.

1 COMENTÁRIO

  1. Ah meu Deus! Incrível ! Muito obrigado, no entanto estou
    passando problemas com seu RSS. Não entender por que Eu
    não posso junção isso. Há ninguém ficando
    o mesmo RSS problemas ? Qualquer um que sabe a resposta você pode gentilmente responder?
    Thanx !

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