Lesões abdominais ocorrem com frequência em músculos sobrecarregados pelos movimentos de saque e forehand (em open stance), a cada dia mais potentes

As lesões abdominais atrapalham a carreira dos tenistas há tempos, mas atualmente apresentam novos desafios devido à evolução da modalidade. A preocupação de se acompanhar a velocidade do jogo, por meio de técnicas – apoiadas pela ciência – para executar golpes com potência superior a do adversário, deve ser integrada ao trabalho de prevenção de lesões e à preparação física. Os dois últimos aspectos são essenciais para que a musculatura aguente a sobrecarga que é exposta, além de ajudar no desempenho em quadra. 

Foi um problema no abdome que tirou Rafael Nadal do Masters 1000 de Paris e do ATP Finals de Londres, impedindo que o espanhol terminasse a temporada no 1º lugar do ranking mundial.

Conforme explica o fisiatra e médico do Brasil na Copa Davis, Ricardo Diaz Savoldelli, os músculos abdominais da parte da frente e lateral estão mais sujeitos a lesões nesse local (principalmente o reto abdominal e os oblíquos). Eles realizam a flexão e rotação, podendo acarretar em contraturas, distensões ou até rotura de fibras. São justamente os gestos de saque e forehand em open stance que forçam esses grupos musculares. “Durante o saque, o maior esforço é feito pelo lado contralateral (se a pessoa é destra, o reto abdominal esquerdo será mais exigido e vice-versa) e por repetir esses movimentos inúmeras vezes, o músculo acaba ficando mais forte e com o diâmetro aumentado em relação ao músculo do lado dominante (que o tenista empunha a raquete)”, detalha Savoldelli, explicando o motivo para o músculo do abdome do tenista ser mais fraco do lado que ele saca.

O fisiatra enfatiza sobre o papel da prevenção de lesões e a preparação física, que, além de fazer toda a diferença por fortalecer a musculatura do abdome, pode elevar o nível de jogo dos tenistas. “Trabalhando esses dois aspectos, a velocidade do saque e do forehand é desenvolvida. A bola vai andar mais”, garante.

“Tenistas profissionais passam horas diárias fazendo trabalho de prevenção de lesões e ainda assim se machucam. Imagine se não fizessem? O quanto iam se machucar? Pegando o exemplo do Nadal, com certeza ele não estaria mais jogando”

Para prevenir ou reduzir as lesões nessa parte do corpo, toda a região abdominal deve ser preparada para a sobrecarga que a prática do tênis exige. Com base em exercícios de alongamento, fortalecimento, resistência, potência e consciência corporal, a busca é pelo equilíbrio pélvico, proteção articular e maior eficiência dos músculos. 

“Lembrando que é essencial o trabalho de contração excêntrica dessa musculatura e outro de pliometria, que em outras palavras são exercícios que realizam certa sequência de contrações musculares, com movimentos rápidos de explosão. O principal exemplo de exercício pliométrico é o de sequência de saltos de um step para o chão e para outro step. E existem exercícios pliométricos específicos para se fazer com os músculos abdominais”, enumera Savoldelli.

Coluna Ricardo Diaz Salvodelli - Lesões
Foto: Ben Solomon/Tennis Australia

Sobre o risco de jogar com uma lesão no abdome, o médico do Brasil na Davis alerta sobre a possibilidade de o problema se agravar ou “espalhar”. “Muitas vezes o tenista começa a tentar modificar o gesto do saque e do forehand procurando ficar mais confortável e sentir menos dor. Com isso, sobrecarrega outras estruturas, como lombar, ombro e punho e podem aparecer dores em outros locais. Tampouco podemos esquecer que vai diminuir a velocidade e potência desses golpes alterados.”

Com o problema constatado, vem a reabilitação que depende de inúmeros fatores: desde a gravidade da lesão, localização (mais próxima ou distante da origem do músculo), idade do atleta, se é profissional ou amador e momento da temporada. Savoldelli lembra que já tratou de jogadores com lesões em músculo idêntico do abdome, mas de gravidades diferentes. Um teve que parar de jogar e treinar por dois meses, enquanto o outro só parou de sacar, mas pôde seguir a rotina de treinamentos – esse último foi liberado para fazer todos os movimentos após 20 dias, inclusive o saque.

“No nível atual do tênis, as lesões se dão mais por essa sobrecarga de querer levar o corpo ao limite, a intensidade do treino e dos golpes. Mas no amador, juvenil e, quiçá, na fase de transição, existe mistura de desconhecimento dos atletas e profissionais ou falta de dar o devido valor. Fazem muito trabalho em  quadra e se esquecem da preparação física e prevenção de lesões”, lamenta.

Dr. Ricardo Diaz Savoldelli - Médico Fisiatra

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