Esse é um tema interessante e bem complexo que deveria ser abordado com mais frequência no país, valorizando o conhecimento dos profissionais envolvidos. Pela longa jornada de torneios, viagens e estudos na minha carreira, além de conversar com especialistas, tenho convicção de que a formação do jogador é na base, sejam os golpes, o lado emocional. Tal momento é decisivo para o sucesso – ou não – de um tenista.

Os golpes representam um diferencial no aperfeiçoamento do jovem, pois o tênis está dinâmico. Os jogadores de hoje têm de ser completos, saber fazer de tudo e, quanto mais cedo adquirir as habilidades necessárias, terão uma chance maior no profissionalismo.

Entrando na prática e abordando outra questão crucial, o Brasil tem bons juvenis, mas também temos problemas quando chega na transição porque somos imediatistas. Os atletas são talentosos, porém, falta técnica mais desenvolvida, a parte tática e o mental. Não se dá o tempo necessário. Além disso, falta aos tenistas brasileiros uma rotina de trabalho, sobre o que fazer bem definido, no exterior esse fator é claro na cabeça dos jovens. Em função das tarefas escolares, vejo enormes dificuldades em manter o juvenil treinando todos os dias e por horas dentro da quadra. 

Quando falo sobre a transição, gosto de citar o exemplo do alemão Alexander Zverev. O próprio atleta diz que o pai o treinou para ser um profissional, não um bom juvenil. Ter sido um nome de destaque no juvenil foi uma consequência. O Federer, por outro lado, já disse que os jogadores treinam muito fundo de quadra e esquecem dos voleios, ao recordar que era bastante estimulado no juvenil para essa parte do jogo, da conclusão dos pontos e agressividade.

Tudo isso é uma programação de desenvolvimento, buscando lá na frente, não o agora. Temos muitos exemplos de tenistas que não foram bons juvenis, mas se tornaram profissionais de primeiro nível. Esse é um grande problema que vejo no Brasil conversando com diversos técnicos. O treinador programa um trabalho a longo prazo, mas, se o resultado não vem de imediato, esse profissional é trocado e ainda taxado de ruim. É algo relacionado à cultura futebolística que temos.

Competir cedo é um diferencial, daí que vem o acúmulo de experiência e o desenvolvimento do lado emocional, claro, desde que seja feita uma programação equilibrada com os treinos. A ITF (Federação Internacional de Tênis) tem estudos apesentando a média de partidas durante o ano dos jovens, de acordo com a idade. Um jogador de 12 anos faz em torno de 40 a 50 jogos. Dos 13 aos 15 anos, em torno de 70 partidas, como disse anteriormente, bem planejado levando em conta os treinamentos. Não é muito.

Pensando ainda no desenvolvimento do juvenil, considero fundamental os torneios de duplas – cruciais para ajudar na evolução de fundamentos, voleios e devolução. Estando bem na transição nos aspectos técnico, tático e físico, o jogador poderá pensar em outras coisas e não terá o lado emocional afetado. Por fim, dispute torneios profissionais no início da transição, ficará mais fácil quando sair do juvenil. O Zverev está aí para comprovar.

Até a próxima coluna.

Ricardo Coelho

Ricardo Coelho é coordenador técnico da Hebraica. Na função de técnico, viajou para três torneios Grand Slam com Júlio Silva, Rogério Dutra Silva e a argentina Maria Argeri. Formou-se em biomecânica aplicada ao tênis, em curso internacional da ATP e nos cursos de níveis 1, 2, 3 e 4 da CBT e ITF

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