Na semana do Brasil Open, Enrique Bogo realiza sonho de treinar com alguns dos melhores do mundo e impressiona sensação atual da modalidade

Estar no Brasil Open de sparring é como um sonho – desde a edição 2017 vinha tentando – naquele ano tive que viajar no feriado de Carnaval e não pude participar, e no ano passado estava com o punho esquerdo fraturado por conta de lesão que me tirou das competições por cinco meses. Essa oportunidade não seria possível se não fosse pelo Aldo Brandão (o Batata), agradeço muito a ele.

Enrique Bogo e Felix

No final de semana do quali, estive em uma competição em Minas Gerais, e cheguei no torneio apenas na segunda-feira. Recebi por meio de um amigo a informação que estava bem difícil bater com os caras, que ele tentou no sábado e no domingo e não conseguiu nenhum treino, mas por mim, só de estar ali do lado da quadra e vendo os jogos já estava um paraíso. Passei a segunda-feira toda lá, nada de treino, mas na terça-feira, às 14h30, recebo uma ligação dizendo que o italiano Lorenzo Sonego – que havia derrotado o Delbonis na rodada noturna – precisava de um sparring às 15h, no Círculo Militar. Foi uma correria, não sabia onde ficavam as quadras desse clube, estava chovendo bastante e eu a pé, mas no fim deu tudo certo e cheguei a tempo do treino.

Estava bem nervoso, obviamente, mas o Sonego é bem descontraído e isso me deixou mais confortável. Ele tem um espírito meio latino de ser feliz. Entramos na quadra, junto ao seu coach, o Gianessi. Já estava pegando a raquete, quando vi um deles tirando uma pequena bola de futebol. Para o meu desespero, eles queriam aquecer com um fute-tênis, sendo que a última vez que joguei futebol foi com 12 anos. Três para cada lado e fomos para a partida. E o medo de afundar a equipe e dar aquela primeira impressão negativa, já entrando para o treino sem moral? No fim, me virei bem, ganhamos o joguinho e foi até mais fácil treinar porque sentia que o mais difícil tinha passado (rs). Treinamos por uma hora, e foi bem legal porque ele focou em situações de jogo que escondessem suas fraquezas e evidenciassem suas forças.

Depois, voltei para o ginásio e passei o resto do dia acompanhando a rodada noturna com Aliassime x Cuevas e o Wild. Depois de apenas sete games, vi o Cuevas pedir para o encordoador fazer a raquete dele com 42 libras para a continuação do jogo.

No dia seguinte, cheguei no início da rodada, e estava ali assistindo há uma hora mais ou menos, quando vem a ligação para ir até a sala de jogadores. Chegando lá, todos os tenistas presentes, todo mundo sério. Foi tenso. Fui chamado para onde marcam os treinos e o responsável me falou que o Aliassime precisava treinar às 14h e perguntou se eu queria. Que pergunta, né.

Enrique Bogo

Lembro que meu coração foi na boca, depois de assistir ao jogo épico contra o Cuevas na noite anterior, do nada vou ter a responsabilidade de aquecê-lo para a partida contra o Ramos Vinolas. Primeiro comportamento automático foi ligar para alguém, precisava externar essas emoções, e chamei o meu treinador. Lembro que não conseguia nem falar direito, gaguejava (rs), é um sentimento diferente de treinar com qualquer outro cara, porque ele é esperança mundial, atração por onde passa e se prepara para ser número 1, diferente de qualquer outro cara ali. Pelo menos sabia que é um cara descontraído, e isso iria ajudar a tirar a tensão na hora. Eis que o encontro na quadra para treinar, mas ele estava muito sério com seu coach. É um diferencial muito grande que vi nele, essa capacidade de pisar na quadra e fazer tudo com muito foco e concentração. Só quando acabou o treino que ele deu risada, conversei bastante com o Aliassime e seu coach, e me senti até sem graça por ficar ali conversando com os dois sendo que qualquer outra pessoa do mundo queria estar no meu lugar, sem estar sendo espremida, conversando como se fossem duas pessoas normais. Os dois, separadamente, perguntaram se eu joguei o torneio, acho que isso mostra que eles gostaram do meu nível. Saímos da quadra de treino conversando e no trajeto para a sala de jogadores, que passa pelo estacionamento, já veio todo mundo parando o Felix querendo autógrafos e selfies. E eu fiquei conversando com o coach aproveitando o máximo da oportunidade. Voltei pra minha cadeira do lado da quadra, aproveitei para mandar uma mensagem ao responsável dos treinos agradecendo a oportunidade e ele respondeu: “Só para você ter uma noção, o Felix veio aqui pessoalmente agradecer o sparring”. Que absurdo. Assisti os jogos restantes, vi o Felix bater o Ramos, o Wild depois, e voltei para casa com a informação de que era pra eu estar às 11h30 no ginásio porque havia grande probabilidade de aquecer o Casper Ruud.

Me programei para chegar às 11h pensando em ficar com uma margem pelo trânsito e, eis que quando estou saindo de casa às 10h, recebo ligação informando que tinha mudado tudo e que agora eu iria aquecer o Mayer por volta das 11h. Resumindo, saí acelerando. O Mayer tinha só o horário das 11h às 11h30 para treinar e, se eu não chegasse, iria ser um problema grande para o torneio.

Consegui chegar 10h53 e já fui direto para a quadra. Foi absurdo porque olhando para ele do outro lado, só lembrava do jogo que ele teve os match points contra o Federer em Shanghai. Foi uma emoção grande também. O saque dele foi o que tive mais dificuldade de devolver, na verdade nem consegui, mesmo sabendo o lado (rs). Muito pesado.

Saio da quadra em êxtase e me chega a notícia de que o Felix quer treinar comigo de novo antes das quartas, contra o Djere. Sentimento indescritível. Ao contrários dos outros treinos, nesse eu tinha uns amigos por perto e isso ajudou a conter o nervosismo. Mas, de qualquer forma, estava mais confiante, porque não era a primeira vez. Nesse dia, o Felix estava bem nervoso, treinou mal na minha visão, parecia estar bem preocupado com esse jogo, com o cara que o venceu no Rio Open. Evitou o contato com os fãs, conversando apenas com o coach. Estava um clima tenso. Acabamos o bate bola e o coach já me deixou avisado que se o Felix fosse ganhando, eu iria ser o parceiro de treino. Torci muito por ele contra o Djere, mas o sérvio jogou muito bem taticamente e pressionou demais o Felix, que jogou mal por conta disso e acabou sendo eliminado. Nem fiquei triste não (rs).
Depois disso, não rolou mais nenhum treino, mas acompanhei tudo o que pude, os jogos, treinos prévios, contatos com os coaches, comportamento dos tenistas. Acabou que quem foi campeão foi quem menos chamou a atenção na semana, o Pella. Sacou muito bem e acredito que o fato de ser canhoto o favoreceu, era o único ali a partir das quartas e todo mundo tinha que se adaptar para jogar com ele.

Entre as diferenças que vi nos jogos desses caras em relação ao nível de partidas que faço atualmente, é como eles jogam muito mais pegando na subida. Nós esperamos muito mais, pensamos muito mais antes de fazer qualquer jogada, somos mais conservadores e não temos tanta confiança para tomar a iniciativa, ao contrário deles, que jogam muito mais rápido e no instinto. Outra diferença que notei foi a habilidade que eles têm de gerar potência e fazer uma rebatida com qualidade, mesmo esticados e batendo na corrida. Nós chegamos perdendo potência e fazendo a bola sobrar para o adversário definir, e eles conseguem se manter intactos na troca, sem partirem para a defesa. Se isso é uma diferença física, técnica ou de equipamento não sei, mas se destaca bem quando comparo os dois níveis.
Concluindo, estando aqui na região, tenho dificuldade em encontrar referências desse nível elevado, tenho dificuldade em imaginar esses jogadores no cotidiano, como pensam, como treinam, como agem, e essa convivência nesse ambiente trouxe a direção necessária para seguir minha jornada focada na evolução e no alcance do meu máximo potencial com muito mais clareza.

Será de grande valia para minha carreira, visto que essa convivência com jogadores melhores sempre foi algo que, inconscientemente, evitei no juvenil e nos primeiros anos no profissional, para o ego é muito mais confortável estar em um ambiente que você é o melhor e todo mundo está olhando para você, do que em um lugar onde é tratado como mais um. Esse comportamento antigo prejudicou muito minha evolução e agora, sempre que possível, procuro essas situações em que sou coadjuvante, pois são elas que vão me fazer um jogador melhor.

*Enrique Bogo mora em São Bernardo e é tenista profissional. Escreveu o relato sobre a experiência no Brasil Open a convite da Winner

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