Jaime Oncins e Thiago Wild são as esperanças atuais do tênis masculino, que tem apresentado escassez de bons resultados

Quando foram entrevistados pela Winner ABC, Jaime Oncins e Thiago Wild não sabiam sobre a divisão de espaço na matéria de capa. Nem nós planejamos. A decisão por juntar a dupla na reportagem de maior destaque – ao invés de deixá-los em matérias separadas – foi motivada pela constatação óbvia: eles representam as esperanças de mudança de rota no tênis masculino do Brasil. Não há como dissociar, é uma missão em comum.

Cada um nos atendeu em momentos distintos, respondendo a temas que têm mais domínio e responsabilidade nesse processo de tentativa de retomada da modalidade. Como se fosse um quebra cabeça, buscamos transmitir a visão de ambos sem fugir do contexto a respeito da reflexão que o tênis nacional anseia. A questão vai além de qualquer possível polêmica sobre convocação, se por exemplo Oncins vai chamar ou não o jovem. É complexa. Aqui, vamos apresentar de que forma os dois podem ajudar e como estão se preparando para o desafio.

Antes de a CBT (Confederação Brasileira de Tênis) oficializar Jaime Oncins no cargo de técnico do time Brasil na Davis, já tínhamos iniciado contato com o ex-jogador para falar do trabalho nos Estados Unidos, na Montverde Academy – escola particular onde começou um programa voltado ao tênis em 2014 com apenas três alunos, sendo dois deles seus filhos. O interesse pela entrevista apenas se manteve depois do anúncio oficial e sem perder de vista o foco que julgamos importante, no que tem sido feito com os alunos.

“A valorização que a escola (Montverde) dá ao profissional é muito grande. Até a parte hierárquica, existe um respeito grande pelos professores e treinadores. Isso dá respaldo. Faz com que você desenvolva o trabalho da maneira que acha correto e sempre é valorizado”, elogiou o ex-tenista, enfatizando que a cobrança por aplicação no dia a dia fica acima do resultado. “Eles apreciam o que você faz quando notam o profissionalismo e a dedicação.”

A despeito de toda a estrutura esportiva nas escolas, a prioridade nos Estados Unidos é formar o estudante para a universidade. A ‘regra’ segue valendo, inclusive, para aqueles que apresentam potencial no tênis, já na categoria juvenil. “A cada 15 dias, recebo o histórico deles de notas, estamos sempre acompanhando, puxando o máximo de cada aluno, não só na quadra”, explica Oncins. “A prioridade da família americana é mandar o filho para uma boa universidade por meio do esporte. Diferente do Brasil que, quando as famílias colocam no tênis, a cultura do pensamento, na maioria dos casos, é a de que o jovem vai ser tenista profissional e a parte acadêmica fica de lado. Para eles, se o menino for um ponto fora da curva, vai para o profissional, mas ainda assim sem deixar os estudos de lado.”
O novo capitão da Davis emprestará ao time Brasil e ao tênis nacional como consequência o espírito de equipe (revelou também na entrevista o plano de conversar com os técnicos dos jogadores convocáveis, justificando o papel de pacificador e o bom diálogo que traz junto consigo), além de outro elemento importante: o aperfeiçoamento que obteve nos Estados Unidos em tirar o máximo de cada jovem tenista.

“Minha experiência nos Estados Unidos fortaleceu o que pensava antes, a parte de observar a individualidade de cada um, conhecer o atleta que está trabalhando, saber como consegue puxar ao máximo compreendendo as personalidades diferentes, a individualidade, respeitando e se fazendo respeitar. É identificar como se portar nesse processo individual com ele, se é preciso motivar com palavras ou com atos, se precisa puxar, ser mais firme ou só conversar para me entender melhor”, enumerou.

No início da temporada, quando o ex-34º do mundo em simples e 22º em duplas se concentrava apenas na Montverde conquistando títulos nacionais com a equipe, agora composta por dezenas de alunos, Thiago Wild entrava de vez na rotina de disputas de torneios ATP – desde o título do US Open juvenil, é difícil os fãs do esporte não olharem para ele com atenção especial. Adquiriu aprendizado com as campanhas no Brasil Open e Rio Open, além de vitória inédita.

“No geral, o balanço foi positivo desses dois campeonatos. Comecei bem meu jogo no Rio Open (contra o japonês Taro Daniel), mas depois ele acabou mudando a tática, vindo mais para a rede, parei um pouco de perna e sai chateado pois poderia ter vencido. Perdi chances de quebra em momentos cruciais. Em São Paulo, consegui minha primeira vitória de ATP, uma emoção muito grande, não joguei bem na segunda partida, porém foi um aprendizado essa campanha e a do Rio de Janeiro”, comentou o tenista de apenas 19 anos.

Diferente de outros compatriotas nessa idade, não tem plano B. Pensa apenas em estar entre os melhores do mundo, amenizando as dificuldades naturais. Apesar de iniciar carreira profissional recentemente, diz que não quer “ficar jogando futures” e estabeleceu como meta fechar a temporada entre os 250 do mundo. Busca se consolidar no circuito o mais rápido possível.

“Não vejo buracos no meu jogo, claro, sempre é preciso melhorar em todos os aspectos, no meu caso mais a parte física que sigo evoluindo, o jogo de pernas. O mental também, faço trabalho de meditação com frequência na academia e antes das partidas que me ajudam”, revelou o paranaense, seguindo na análise própria. “Venho trabalhando para ser regular em quadra, bem intenso por um período maior de tempo. A questão do volume de jogo.”

Apostando na nova geração, Jaime Oncins afirma que o momento do tênis brasileiro é de transição, algo que considera normal. “Estamos com safra de garotos vindo, com potencial. Pude acompanhar alguns resultados, isso traz motivação. A garotada vem desenvolvendo bom trabalho saindo do juvenil, o que nos dá perspectivas de termos bons jogadores no futuro. Falando dos mais experientes, o Thomaz Bellucci está brigando para voltar ao seu melhor tênis, o Thiago Monteiro, apesar de ser jovem, tem conseguido resultados e vem jogando bem, acompanhei ele no Miami Open. Tem espaço para crescer”, aposta.

Dentre essa garotada com potencial, não precisa entender a fundo o tênis para saber que um deles se trata de Thiago Wild. Questionado como lida com a pressão natural de ter sobre si a expectativa por títulos, o paranaense explica: “A pressão é inerente a todo atleta, se não lidasse bem, não teria conquistado o que já ganhei, mas há muita coisa por conquistar e estou em início de carreira. Eu lido com cada jogo como se fosse uma partida comum, seja um Grand Slam como era no juvenil, future, challenger ou ATP”, garante uma das esperanças do Brasil, que é observado de perto por Oncins.

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