Entre os melhores duplistas do mundo, Marcelo Demoliner dividiu a quadra com 26 tenistas diferentes desde 2018 e jamais perdeu a regularidade

Pelas dificuldades impostas a quem joga duplas profissionalmente, Marcelo Demoliner não desfrutou de um parceiro fixo nesses dois últimos anos. No período, dividiu a quadra com 26 tenistas em torneios ATP e Copa Davis – a lista só “estabilizou” no final da temporada atual, com um título e um vice com o holandês Matwe Middelkoop e a oficialização da dupla para 2020. É natural até para um top 10 sofrer com as mudanças, mas o brasileiro mantém o alto nível e se adapta rápido aos variados estilos, servindo de exemplo para quem disputa campeonatos por equipes.

O título da reportagem especial de capa visa enfatizar essa capacidade rara de adaptação do gaúcho, sem ignorar, obviamente, a importância do parceiro. Afinal, quando se fala em duplas, associamos a um jogo coletivo e que tira a individualidade tão presente no tênis.

“Sempre me relaciono de forma bastante aberta e profissional nas duplas. A questão do teu parceiro não estar em um bom dia ou perder uma bola fácil no match point (como já ocorreu com o jogador), por exemplo, faz parte e vai acontecer muitas vezes. E não só com ele, comigo também pode passar. Para minimizar, a gente sempre tenta montar e combinar o plano de jogo com os pontos fortes e fracos de cada um. O técnico ajuda bastante nessa formatação com treinos específicos”, ensina Demoliner que, junto dos compatriotas Marcelo Melo e Bruno Soares, apresenta qualidade de tênis para derrotar qualquer dupla no mundo.

Sobre a adaptação imediata após as trocas, ele diz que busca deixar o parceiro confortável e que percebe facilidades nesse processo em razão do autoconhecimento – de si mesmo e do próprio jogo. E dá a receita para um tenista se sair bem nos confrontos por equipes, como uma Copa Davis. “Empatia, companheirismo e liderança. É saber se comunicar com precisão em certos momentos, seja com o parceiro ou com o time”, enumerou Demoliner.

“Acredito que o jogo por equipes, não especificamente só as duplas, mas a competição em si, é algo raro hoje em dia e que eu acho que deveria ter mais. Nesse tipo de evento se aprende valores e outros fatores que nos torneios individuais não têm, como o espírito de equipe e a busca de um objetivo em comum”

Marcelo Demoliner

As variáveis com relação ao ranking atrapalharam os planos do atleta, no sentido de se firmar com um parceiro. Tenistas que estão entre os números 1 e 30 têm garantia de entrar em todos os torneios, situação oposta a quem não faz parte desse grupo – até o fechamento desta reportagem, Marcelo Demoliner era o 47º e Middelkoop, 54º. Por isso, muitas vezes, é preciso alterar a dupla para ter a somatória do ranking suficiente e assim fazer parte da chave de um ATP 500 ou Masters 1000.

“É uma questão complicada, mas a ATP dificilmente vai mudar esse formato pois os jogadores no topo do ranking de simples atraem bastante público quando participam (das duplas)”, explicou o jogador da Tennis Route, academia que fica no Rio de Janeiro. “A minha opinião sempre foi de abrir espaço na chave de duplas para os simplistas, porém de forma reduzida. Um que está entre 30 e 60 do mundo não causa o mesmo impacto que os famosos e com essa regra eles tiram lugar de quem se dedica exclusivamente nas duplas”, criticou.

O currículo de Demoliner é de respeito, com vitórias em cima de todos os nomes que figuram entre os dez primeiros do mundo nas duplas. Mas ele quer mais. “Preciso ter constância nos resultados em torneios grandes. Quando encaixar uma boa parceria, acho que vou dar um salto legal. Sei do meu potencial. Ainda não tive oportunidade de jogar com algum duplista top ao meu lado, mas vou continuar trabalhando duro para conseguir meus sonhos e objetivos”, assegura o gaúcho, colocando em prática todo o aprendizado adquirido ao longo da carreira. “Tenho que ter paciência e fé nesse processo.”

A tática da paciência, aliás, se mostrou acertada. Antes do ATP 250 de Moscou, na Rússia, carregava um retrospecto negativo em finais e que gerou um desabafo na entrevista exclusiva à Winner ABC, feito na véspera desse campeonato que impulsionou o tenista de 30 anos. Até esse evento-chave, acumulava dez decisões de ATP e apenas um título conquistado ao lado do mexicano Santiago González na grama de Antalya, no ano passado. “Claro que incomoda. Sou muito competitivo e odeio perder até no par ou ímpar. Joguei muito bem em 80% das finais, mas não depende só de mim, é um esporte por equipe e também tem outra dupla forte do outro lado. É manter o trabalho, pois tenho certeza que coisas boas virão”. A declaração, de fato, era uma profecia. O título na Rússia logo na sequência confirmou o momento positivo com Middelkoop e a convicção – em um novo depoimento – de que a parceria deve se manter firme, com exceção dos torneios em que o ranking não permitir.

“Eu já vinha sondando ele desde o início da temporada. Estava buscando alguém que complementasse com o meu jogo. Esse ano foi difícil de achar, todos que eu queria estavam comprometidos. Depois do US Open, tive outra conversa com o Middelkoop e conseguimos encaixar de atuar juntos. A ideia sempre foi de achar um parceiro fixo, mas não é tão fácil como as pessoas imaginam. Sentimos que a dupla tem futuro nos cinco campeonatos que disputamos e decidimos levar adiante”, revelou Demoliner, que planeja atuar em alto nível por mais uma década pela longevidade que as duplas proporcionam.

“A lesão antes do Pan (de Lima) foi bastante doída, porque tenho satisfação enorme em competições que defendemos nossa bandeira. A superação e vontade de querer conquistar meus sonhos e objetivos sempre foram maiores que as lesões”

Marcelo Demoliner

Marketing próprio

Em 2017, quando alcançou o melhor ranking (34º), Demoliner declarou em outras entrevistas que era pouco conhecido. Os investimentos das empresas ficavam direcionados à dupla mais famosa do país e inspiração para o próprio gaúcho, Marcelo Melo e Bruno Soares. Para cortar caminhos, o atleta da Tennis Route se graduou em marketing e passou a captar os próprios patrocinadores.

“Esse cenário mudou um pouco por estar me mantendo em um nível legal esses anos, jogando mais e mais torneios grandes e ficando no ‘bolo’. Tenho dificuldades ainda, não sou hipócrita. Mas no fundo, isso só vai depender de mim e dos resultados. Empresas querem vitórias e o conhecimento do marketing ajuda bastante”, argumentou, destacando a importância do pai que ajuda no gerenciamento da carreira. “Depois que me formei comecei a ver o tênis com um olhar diferente e mais maduro.”

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