Instabilidade do tênis no país e falta de apoio motivam brasileiros a optar pelos Estados Unidos

É difícil ter segurança e tranquilidade para jogar tênis no Brasil. No profissionalismo, quando o esporte é prioridade total, o atleta treina e se dedica integralmente. Mas e o futuro? Com essa indefinição sobre a carreira, provocada pela forma como a modalidade é administrada no país, a falta de patrocinadores e outros problemas, muitos têm optado pelo tênis universitário em caminho que lembra uma rua com mão única.

Para entender melhor o que se passa na cabeça de quem faz essa mudança, a Winner entrevistou três brasileiros que jogam nos Estados Unidos. Durante as férias na faculdade, eles se juntaram a Rafaela Santos – nome importante do ABC que tinha acabado de acertar a ida para a terra do Tio Sam – e treinaram na academia Tênis & Cia, em Santo André.

Eles são unânimes em afirmar que o nível do tênis jogado por lá é superior tecnicamente, a despeito da necessidade de se dividir entre as quadras e os estudos. “Na minha opinião, se você se forma no colégio e vai com 18 anos para os Estados Unidos, dependendo da faculdade, se é uma focada em evoluir no tênis, com programa competitivo, vejo como totalmente positivo. Muitos jogadores top de linha e que não foram para o profissional são melhores do que os profissionais brasileiros”, comparou Marcos Vinicius de Azevedo Silva, que está na Universidade do Texas, há um ano de completar o curso de finanças. “O feminino é pior no Brasil, não tem ninguém para te puxar. O nível dos futures sul-americanos é mais fraco do que as divisões dos Estados Unidos. Conheço uma menina que fazia semifinal aqui e agora tem dificuldade para ganhar uma partida”, complementa Giovanna Caputo.

 

Giovanna garante que na faculdade de West Virginia, onde é valorizada, há tenistas profissionais, mas ela, Marcos e Maycon Santos Dias – também da West Virginia – admitem priorizar a carreira acadêmica. “Joguei um tempo profissional no Brasil, por dois ou três anos, mas como estava difícil a situação aqui, com poucos torneios no país e gasto grande para viajar, decidi seguir o caminho de outros”, recorda Maycon, fruto de um projeto social e que começou no tênis com 16 anos.

Nos Estados Unidos, os jogadores recebem valorização com direito à medalha por boas notas e cartazes espalhados pelas instituições de ensino. Outra questão interessante é que o professor entende as ausências na aula por conta de um compromisso esportivo, a ponto de ficar esperando pelo chamado dos alunos/ atletas para um acompanhamento individual. Nem por isso o tênis fica em segundo plano.

“É uma valorização que não tive enquanto profissional no Brasil. Eles incentivam todos os esportes, há uma estrutura só para os esportistas, você até pode ligar para o técnico para ele te treinar a qualquer momento. Não se paga a bola para treinos, alimentação sempre disponível, você não precisa se preocupar porque tem pessoas que estão vendo isso por nós”, detalha Marcos. “Certa vez, machuquei o tornozelo, no exato momento me levaram para a fisioterapia, deram toda a atenção. Chegaram até a colocar uma calça em mim que aperta a perna para a acelerar a recuperação, algo que nunca tinha visto”, emendou Maycon, que também joga futebol na West Virginia.

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Em relação à metodologia de trabalho com o tênis, há poucos técnicos para atender inúmeros jogadores, além de o esporte ser olhado de forma coletiva por conta dos confrontos entre universidades. “No tênis, o treinador não pode ficar falando com você durante a partida, isso (de não ter acompanhamento individual do profissional) nos torna independentes, caso contrário pagaremos o preço”, opina Giovana.

Marcos Vinicius enfatiza que o sucesso ou o fracasso é determinado pelo próprio atleta, sem interferência externa. “É um compromisso que você cria, você tem que ir na aula senão chega outro que rouba o seu lugar. Vale bolsa, você precisa de notas boas. Tudo gira em torno do esporte, mas todas as outras questões são importantes”. Giovana confirma as palavras do compatriota. “Tudo mundo tem oportunidade igual e vai colher o que plantar. Aqui (Brasil), você se mata e não tem patrocinador. Lá é diferente, é mais justo. Mas, se você não quiser, ninguém vai crucificar, você tem o poder de escolha.”

A novata Rafaela Santos citou experiência neste ano, quando disputou torneio no Brasil em fevereiro, mas depois não conseguiu dar sequência na Europa por escassez de recursos. Ela se diz impressionada com o número de meninas que têm escolhido o tênis universitário. “No Brasil, você fica no profissional e deixa o estudo em segundo plano, aí não dá certo no tênis e fica difícil. Nos Estados Unidos, você consegue fazer os dois juntos”, analisou.

“Mas até pensando no profissionalismo, a faculdade nos Estados Unidos te dá maturidade. Você precisa ter nota mínima para ficar na equipe, não perder a bolsa, falar inglês e depois segue um caminho, que vai ser o próprio tênis ou o estudo”.diz giovana

Outro lado


É consenso entre os atletas que a experiência nos Estados Unidos é fundamental no amadurecimento, por vivenciar situações atípicas em relação ao Brasil, o nível de jogo é alto e o calendário, repleto de partidas ao longo temporada – sem falar do suporte financeiro com viagens e tudo mais. Entretanto, o tempo dedicado ao tênis evidentemente é menor.

O técnico Edson Santos, pai de Rafaela e o coordenador da modalidade na Tênis & Cia, ressalta que cada história deve ser avaliada individualmente, às vezes para entender se é bom ou não optar pelo tênis universitário.

“O Maycon é um exemplo, veio de um projeto social. O tênis feminino também favorece a mudança, as bolsas são melhores e é mais tentador ainda”, pontuou, antes de apresentar o outro lado. “Lá é competitivo, mas a cobrança de ganhar, pressão do torneio profissional não é igual. Você joga por uma equipe, vai ser cobrado, mas divide isso”, opinou.

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