*Deric Fukuda e Luiz Augusto Borges Gomes

Trabalho de dois especialistas analisa incidência de problemas físicos entre homens e mulheres em dois Grand Slam; dupla faz comparação com amadores

Na prática clínica diária, encontramos diversos jogadores amadores que se queixam de lesões nos ombros, nos punhos, nos joelhos e principalmente nos cotovelos. Apesar desses problemas físicos poderem ter um início abrupto, em muitos dos casos eles começam como um pequeno desconforto, que gradualmente aumenta em intensidade e se torna uma dor incapacitante com a manutenção da prática esportiva – reduzindo o desempenho dentro de quadra ou até impedindo o atleta de continuar praticando o tênis. Será que entre os profissionais as queixas encontradas são semelhantes?

Dois estudos publicados recentemente tiveram como objetivo principal verificar a incidência de lesões entre os participantes de dois dos quatro Grand Slam presentes no calendário do tênis, que estão entre os torneios mais importantes da temporada. O primeiro estudo, publicado em 2014, fez uma análise dos padrões de lesão encontrados entre os atletas que estiveram nas edições de 1994 a 2009 do US Open, enquanto o segundo, de 2017, avalia o perfil das lesões sofridas pelos tenistas que disputaram o Australian Open entre 2011 e 2016.

Apesar do período analisado ser bem diferente, com uma década de dados coletados a mais do Slam americano, os dois eventos chegaram em um número total de lesões semelhante. O estudo realizado com dados provenientes do US Open contabilizou 1219 lesões, enquanto o do Australian Open mostrou um total de 1170 problemas físicos. A partir desses resultados, podemos inferir que, com o passar dos anos, houve uma tendência ao aumento de lesões sofridas pelos atletas, algo mostrado diretamente pelo estudo publicado em 2017, que ainda apresentou elevação entre as temporadas de 2011 a 2016. Isto é resultado de mudanças nas demandas durante os jogos, com um aumento nas trocas de bolas e consequentemente na duração dos pontos e das partidas, o que eleva a exigência física sobre os atletas, e também pelo calendário extenuante de torneios. O grande número de campeonatos durante a temporada, somado aos períodos de treinamento, muitas vezes sem periodização adequada, impõe carga extremamente alta no organismo do atleta.

Ao contrário do que os amantes do tênis pensam, a maioria das lesões diagnosticadas entre esses atletas não acomete os membros superiores (ombro, cotovelo, punho, mão/dedos), mas os inferiores (incluindo quadril, joelho, tornozelo, pé/dedos). O estudo realizado com os dados provenientes do registro das lesões ocorridas durante 16 edições do US Open mostrou que os atletas, independentemente do sexo, apresentam aproximadamente três vezes mais chances de sofrer problemas no membro inferior. Além disso, ambos os trabalhos apontaram que a maioria das lesões sofridas pelos atletas profissionais são lesões agudas (condição resultante de um evento específico identificável ou quando há um início súbito de dor ou incapacidade) e atraumáticas (quando não há contato), com uma representatividade de cerca de 60% de todas as lesões, conforme apresentou o estudo publicado em 2014. Em relação aos tipos de lesão, os mais comuns são musculares/tendíneas e entorses. O trabalho publicado com dados do Australian Open mostrou que a cada 10 mil games disputados (contabilizando dados de todos os jogadores), ocorre em média 45,9 a 56,5 lesões musculares, sendo que lesões musculares/tendíneas podem representar até 80% de todas as lesões, conforme apontado pelo estudo do US Open.

Ainda analisando os resultados, observamos uma discrepância em relação ao padrão de lesões que encontramos na prática clínica diária atendendo atletas amadores de tênis, que normalmente não se queixam de lesões agudas (quando tem um choque) /traumáticas, mas sim de lesões por sobrecarga, que apresentam um início gradual e vão piorando com o passar do tempo. Além disso, os locais mais acometidos entre os atletas amadores são os ombros, cotovelos, punhos e joelhos, que sofrem com lesões como bursites e tendinopatias.

Essa discrepância de padrão evidencia que os atletas amadores não têm preparado seu corpo adequadamente para lidar com as cargas de treinamentos e jogos as quais se submetem e também não têm dado a devida importância à qualidade do movimento durante os golpes e também aos equipamentos utilizados, principalmente no que se refere ao tipo e tensão da corda utilizada em suas raquetes. Para que esse panorama mude, recomendamos aos amadores que procurem um profissional capacitado para auxiliá-lo na preparação de seu corpo para a prática esportiva.

1 COMENTÁRIO

  1. Muito bacana os estudos, acredito também que o motivo das lesões dos amadores serem na maioria de membros superiores reflete o quanto esses jogadores sobrecarregam as articulações dos braços ao fazerem uma força desnecessária por não utilizarem os membros inferiores na execução do golpe, como também os jogadores amadores se deslocam muito menos em quadra em comparação com os profissionais.
    Parabéns pela matéria!

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