Em entrevista exclusiva, técnico tricampeão de Roland Garros recorda parceria histórica com Guga e fala do tênis atual: “Seria ideal reunir os talentos que estão em todas as partes”

Transformar uma criança que não sabe correr em número um do tênis é utópico, mas possível quando há sacrifício, confiança e conhecimento. Utopia, que no dicionário tem o significado de fantasioso, imaginário, de algo que tende a não se realizar, é a palavra que Larri Passos gosta de usar para descrever a parceria com Gustavo Kuerten, uma das mais vitoriosas da história do esporte brasileiro. Depois de ficar 20 anos com Guga e moldar o catarinense para a conquista de três Roland Garros, além do topo do ranking mundial, o técnico levou outro pupilo ao título do Aberto da Austrália (quem não se lembra de Tiago Fernandes, campeão do Slam no juvenil?) e treinou jogadores importantes, mas atualmente leva vida tranquila nos Estados Unidos. Sem a pressão de campeonatos, a prioridade está na família. Quando possível, empresta a experiência adquirida em consultorias. Outra motivação é o seu instituto em Balneário Camboriú, onde trabalha com projetos sociais e a iniciação.

Larri Passos
Foto: Divulgação / Assessoria

Larri aceitou dar entrevista exclusiva à Winner ABC e fez análise sobre o tênis brasileiro, sem deixar de tocar nas feridas. Ele também falou sobre o avanço do treinamento, buscando comparar com a época em que comandava Guga. Destaque para o improviso nas atividades com Kuerten e bastidores, como o choro que arrancou de Pete Sampras.

A formação do treinador, aliás, passou por países além do Brasil. “Já saí pelo mundo desde muito jovem. Comecei a viajar pela Europa e Estados Unidos, minha formação passou por esses lugares. Para mim estar nos Estados Unidos hoje não é uma novidade, em 1979 já vim para cá e mentalizei bem o que queria. Deu força (esse conhecimento) para chegar onde cheguei”, explica o técnico, prestes a completar 60 anos. “Não vim aqui buscar conhecimento, eu vim para aplicar.”

Larri Passos
Foto: Divulgação / Assessoria

Para Larri, não dá para comparar o Brasil com os países que recebem Grand Slam em termos de estrutura, já que usufruem de verba acima da média para aplicar no tênis – fora as diversas políticas públicas voltadas ao esporte. “Nós temos dificuldade com dinheiro.” A despeito dos problemas financeiros, já tratado na revista em edições anteriores, o técnico vai no caminho de outros nomes de peso na modalidade e aponta a iniciação e formação como pontos fracos em solo nacional.

“Nós pagamos um preço muito alto ainda porque a nossa iniciação não está boa. É um problema lá embaixo. E, sem dúvida nenhuma, chegar na transição é um momento crítico, ali o jogador precisa ser ajustado, moldado, que é um dos processos mais difíceis no Brasil. O ideal seria reunir os talentos que estão perdidos por todas as partes do país e fazer a transição juntos”, aconselha Larri, antes de lamentar projeto interrompido visando os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. “Isso (de juntar os jogadores com potencial e futuro) foi tentado por só 11 meses, mas o projeto olímpico era para cinco anos. Fiquei frustrado naquela época.”

Ainda sobre a transição, o treinador enfatiza uma peculiaridade do atleta latino que atrasa o processo rumo ao profissionalismo. “A transição do latino em geral é mais lenta, não dá para fazer comparação com a europeia e a americana. Nos Estados Unidos, o menino já toma decisões com 14 anos. Escolhe onde quer estudar, muitas vezes sai de casa, do Estado. Essa independência gera um pouco mais de autoconfiança. O latino é mais apegado com a família”, opina o gaúcho. “Às vezes o técnico tem que ser mais paizão mesmo, não adianta mudar a cultura que existe dentro do país”, complementa.

Uma das preocupações de Larri Passos se debruça sobre as facilidades para os jovens, os celulares precisamente. “Hoje em dia está mais complicado por causa da tecnologia (nesse aspecto específico dos aparelhos móveis). O menino treina três horas na quadra, bota o pé fora da quadra, corre e pega o celular. Esse conteúdo que assimilou não é a mesma coisa, a mente vai para outro lugar, lá na frente, olhando outras coisas. A fixação é menor, mais difícil. Precisamos controlar essa tecnologia com os pais. Não vou criticar os jovens, eles precisam estar ligados, mas se ele quer, precisa ter a mente 100%. Se não estiver 100%, ele não vai conseguir”, avisa.

Falar sobre treinamento é prazeroso para Larri, que aí sim comemora o avanço da tecnologia e da ciência. A quantidade de pesquisas sobre o tênis só aumenta com o passar dos anos. É desse tema que surge história curiosa envolvendo Gustavo Kuerten.

Larri Passos
Foto: Divulgação / Assessoria

“O que dá para fazer na formação é a parte da modelação. Tu pegar a criança e modelar. Qual é o seu estilo? Se é ficar mais trás, jogar com bolas profundas, então você pega o modelo de um jogador que usa mais top spin. É a repetição modelando o tenista como tu quer que seja. Era muito engraçado na época do Guga. Eu tinha que correr na frente dele, já que ele não sabia correr. Hoje é muito mais fácil, tem recursos”, recorda.

“Os recursos de hoje não existiam com o Guga. Eu cortava borracha de câmara de bicicleta para fazer os trabalhos de potência com ele, dentro da quadra. Ele usava na cintura para fazer atividades de movimentação, coordenação. Inventava muita coisa para poder trabalhar. Hoje você vai na loja e compra um monte de acessório”, enumera.

Apesar da evolução da ciência benéfica ao tênis, Larri diz que é fundamental ter “equilíbrio” no preparo do tenista. “Tem que ficar ligado, muitas vezes o jogador fica três horas fazendo físico, bate bola meia hora e acha que está bom. Não. Tem que ser bem equilibrado, parte física, coordenação e fortalecimento. É preciso trabalhar o quadril, por exemplo, que ainda é o câncer do atleta.”


Capacitação, choro de Sampras e legado Guga

Larri Passos
Foto: Divulgação / Assessoria

Quando diz que sua formação passou pela Europa e Estados Unidos, Larri Passos não fala da boca para fora. Ele buscou conhecimento. No início da carreira, por exemplo, não se esquece dos treinos que acompanhou do alemão Boris Becker, que viria a se tornar número um do mundo.

“Eu era humilde, sentava em uma cadeira de Wimbledon e assistia o Becker treinando devolução de saque. Via o Stefan Edberg com seu técnico. Já colocava na cabeça à época que queria ir atrás de conhecimento. Sentava, batia papo com os treinadores desses feras. Eles explicavam, diziam para ficar mais com a minha família quando pudesse. Um desses me falou uma vez: você tem um jogador sensacional no fundo de quadra (Guga), não precisa fazer ele subir na rede”, lembra o gaúcho, que dá conselho direto para os compatriotas.

“Para ser um treinador de qualquer modalidade você precisa ir atrás do conhecimento. Não pode achar que sabe tudo. Tem de ser humilde, sair, viajar, procurar várias experiências. Quando eu era mais jovem, fazia questão de levar meu atleta a várias academias, pedia para ele comparar nosso trabalho, ver o que poderíamos melhorar. Era muito silencioso no que fazia. Eu tenho que ser melhor do que eu mesmo, essa é a minha frase”, compartilha o comandante.

Nas andanças e conversas pelo circuito, um fato ficou marcado para sempre. “Encontrei com o Pete Sampras no vestiário, ele chorou com alguns acontecimentos meus que não vou contar”, relata ele, bem conhecido dos craques da época de Guga.

Larri Passos
Foto: Divulgação / Assessoria

Sobre o maior tenista que dirigiu na carreira, Larri é só elogios. “O Guga é fora de série, todos deveriam copiar o coração desse cara. É um exemplo de homem que começou lá de baixo e venceu.” Para ele, Gustavo Kuerten deixa legado de trajetória vencedora. “Foi um cara que acreditou no trabalho e conseguiu vencer mesmo morando em um país sem as menores condições. Foi uma parceria bem utópica entre nós, coloquei na cabeça dele que poderia chegar longe. Fomos à luta, largamos tudo e sacrificamos 100%. Também empresta o legado daquela pessoa que você olha e não vê maldade nenhuma, é honesto. O legado fica para o resto da vida. O pessoal sempre vai falar em seguir caminho do Guga.”


Presente

Larri Passos
Foto: Divulgação / Assessoria

Mesmo à distância, Larri dirige academia que leva seu nome na cidade de Santa Catarina e, recentemente, foi fechada parceria com a Prefeitura local para treinos com crianças carentes.

“A minha escola em Camboriú segue firme, sempre vou em julho, dezembro. Procuro passar consultorias, alguns jogadores vão lá e fico com eles. Dou uns retoques na parte técnica. Tenho feito muita consultoria, na França, na China. Estou à disposição dos tenistas quando é possível, eles fazem ajustes técnicos comigo, passo a experiência do circuito”, enumera.

O professor comemora por atender jovens de 6 a 16 anos, dando a perspectiva de se tornarem profissionais ou conseguirem bolsa de estudo. “A ideia é colocar meninos com objetivos, mesmo que não seja profissional. O jovem pode sair e jogar em uma universidade dos Estados Unidos, hoje tenho muito mais contato aqui.” Siga firme, Larri.

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