Em entrevista à Winner ABC, ex-médico do Brasil na Copa Davis fala sobre as lesões menos conhecidas no tênis e erros que prejudicam os jogadores

“Um médico conhece, em média, 300 diagnósticos diferentes num universo de milhares deles, ou seja, a chance de não saber ou de errar o diagnóstico é maior do que acertar e por isso é importante que todos colaborem para que sejam aplicados os melhores conhecimentos, procedimentos diagnósticos e terapêuticos”. A opinião que dá início à reportagem é de Gilbert Bang, referência em medicina esportiva no tênis com a experiência de trabalhar há mais de 15 anos na modalidade.

Foto: Divulgação

Ex-médico do Brasil na Copa Davis, Bang concedeu entrevista exclusiva à Winner ABC. A nossa ideia inicial era falar sobre lesões raras – ou menos populares, como ele preferiu classificar -, mas a conversa se aprofundou e entrou nos riscos de se fazer um diagnóstico errado. O especialista disse que a busca por um diagnóstico mais comum é perigoso e que “apenas a experiência, conhecimento e vivência permitem pensar fora da caixa.”

O doutor, que acompanha alguns tenistas pelo circuito profissional, ainda responde se o avanço da ciência esportiva e o aumento da exigência física na modalidade levaram à ampliação no número de lesões nos últimos anos. Confira:

Doutor, fale sobre sua formação, experiência no tênis e atividades que realiza atualmente.

Comecei a trabalhar com tênis na extinta academia Unisys Arena, em São Paulo, em 2002. Desde então, tive a oportunidade de acompanhar treinos, torneios e conhecer quase todos os principais tenistas e personalidades da história do tênis brasileiro. Também foram muitos anos viajando, de torneios de academia a Grand Slam, mas certamente participar da Copa Davis representando o Brasil é o ponto mais marcante.

Após o encerramento das atividades da Unisys Arena, fui para a academia Mesq Tênis, onde continuo atendendo tenistas e dando suporte a profissionais de saúde da área.

Em 2014, pedi para o capitão João Zwetsch me substituir na Copa Davis e passei a trabalhar no São Paulo Futebol Clube. Ainda viajei junto com a equipe brasileira para a Fed Cup em 2016.

Com sua vivência no tênis, o que é uma lesão rara? Como o tenista sabe que está diante de um problema físico que não é comum na modalidade?

Eu chamaria de lesões menos populares no circuito tenístico. Por exemplo, praticamente todos os tenistas conhecem o “tennis elbow” (lesão no cotovelo), mas não o “tennis toe”, apesar de muitos terem ou conhecerem alguém com esse problema. Essa lesão é a famosa “unha preta” no pé (mais comum no hálux, dedão do pé). A carga sobre o dedo e o atrito com o calçado provocam essa lesão, que é caracterizada por uma hemorragia por baixo da unha. É a mesma aparência de uma unha machucada por uma martelada. O quadro pode ser tão doloroso na fase aguda que pode incapacitar o jogador de caminhar normalmente.

No recente caso do Nadal, a lesão (no músculo flexor da coxa) propriamente dita é comum. Isto é, a lesão muscular grau 1 é comum no dia a dia da clínica ortopédica, mas como o nome do músculo não é tão popular assim, a lesão é vista como rara.

Na maioria das vezes, o tenista faz de tudo para não largar a raquete e acredita que sua lesão seja uma simples tendinite, bursite, distensão ou contratura. Quando as medidas convencionais não geram o resultado esperado, ele procura assistência especializada e a lesão pode não ser mais simples. Aquele início da dor poderia realmente ser uma tendinite comum, por exemplo, mas se não tratada adequadamente pode resultar em lesões mais graves cujos nomes são menos populares e consequentemente consideradas mais raras.

Doutor, podemos dizer que não há lesões no tênis que sejam desconhecidas da ciência ou é errado colocar dessa maneira? Há casos em que houve dúvida sobre o tratamento, como por exemplo a lesão no quadril do Guga. 

Sem dúvida, há lesões que desconhecemos ou por não saber de sua existência realmente ou não sabermos o diagnóstico correto. Naturalmente, buscamos os diagnósticos mais comuns e apenas a experiência, conhecimento e vivência nos permitem pensar fora da caixa. É bom lembrar que lesão não se refere apenas a uma alteração da estrutura. Lesão pode se referir a um dano funcional, ou seja, a queda de rendimento pode ser considerada uma lesão funcional e o jogador pode, nesse caso, não apresentar nenhuma lesão visualmente detectada. Por esse motivo existe a limitação de jogos em calor excessivo, pois o dano ao organismo ocorre no nível metabólico (funcional) e não estrutural.

Em que região do corpo são mais recorrentes as lesões raras atualmente e quais são as que dão mais dor de cabeça aos médicos? Explique o porquê.

Considerando as estatísticas, o tenista profissional tem mais lesões da cintura para baixo porque ele usa mais os membros inferiores para transmitir energia à bola, enquanto o amador tem mais problemas da cintura para cima – pois utiliza a força do braço para acelerar a bola ou gerar mais potência ao golpe. Quando ocorre o inverso é um sinal de alerta, já que sai da curva da normalidade.

O que mais dificulta os profissionais de saúde é a qualidade e a totalidade de informações com que se trabalha para fazer o diagnóstico e gerenciar o tratamento. Não é raro que as informações iniciais sejam superficiais e tendenciosas buscando um diagnóstico comum e que, especialmente na visão do tenista, não necessite interromper a prática esportiva. Assim, se faz um diagnóstico inicial errado baseado apenas em sintomas locais e, quando não se observa o resultado esperado com o tratamento, buscam outras informações que não foram abordadas na primeira avaliação.

Qual é a relação das lesões raras com a evolução da modalidade? Esses problemas físicos incomuns aumentaram nos últimos anos? Explique.

À medida em que a tecnologia avançou e foi aplicada à ciência esportiva, houve evolução na forma de se jogar tênis. Isso levou ao aperfeiçoamento do gesto esportivo impactando sobre a economia de energia e melhor aproveitamento das capacidades físicas e mentais. Ao mesmo tempo que a tecnologia contribuiu para melhorar a análise biomecânica (e consequentemente o treinamento), ela também ajudou a melhorar a análise estrutural como, por exemplo, através da ressonância magnética e exames com reconstruções 3D. Porém, existe o que se chama dissociação clínico-radiológica, ou seja, nem tudo que aparece nos exames o indivíduo sente ou está relacionado ao quadro clínico. Um exemplo clássico é o da ressonância magnética da coluna vertebral. Na faixa etária dos 20 anos de idade, quase 40% dos indivíduos sem sintomas apresentam algum grau de degeneração dos discos. Aos 30 anos, mais de 50% vão apresentar essa alteração, mas nem por isso sentirão dor ou vão necessitar de qualquer tratamento. Isso significa que em parte essa melhora dos equipamentos levou ao exagero diagnóstico e ao aumento do número de diagnósticos, mas não necessariamente ao aumento do número real de lesões. Possivelmente, os jogadores tenham as mesmas lesões que há 20 ou 30 anos, mas apenas não sabíamos o que era pela dificuldade de diagnóstico. Na última grande revisão científica de lesões relacionadas ao tênis, não se pode concluir que o aumento da exigência física levou ao aumento de lesões.

Quando o tênis está diante de uma lesão que é o que parece? O que é preciso fazer para evitar a confusão, seja por parte do jogador ou do corpo médico que o acompanha?

O problema maior é o que citei nas respostas anteriores. A experiência, a qualidade e totalidade de informações e a evolução diante do tratamento são os pontos fundamentais para o diagnóstico preciso. Veja o raciocínio comum: dor no ombro é igual a tendinite ou bursite; dor no cotovelo é sinônimo de “tennis elbow”; dor na coluna é um mal jeito; dor no joelho ou é lesão de menisco, condromalácia ou tendinite patelar; dor no quadril ou é a lesão igual do Guga (e agora) ou do Nadal. Isso não significa que pensar primeiramente nas lesões mais comuns esteja errado, mas deixar de levantar outras hipóteses pode resultar em danos mais graves.

Vou citar apenas um exemplo fictício, mas com descrição de uma lesão real. Ao mudar de quadra, do saibro para a quadra dura, um tenista passa a sentir dor no pé e acha que a mudança de quadra foi o único motivo. Assim, continua treinando e jogando, aplicando gelo e tomando medicações. Ao notar que não melhora, um dos primeiros diagnósticos que se faz é de fascite plantar (ou fasceíte plantar, como alguns falam) e se passa a culpar, além da quadra, o calçado. Feitos os ajustes, a dor persiste. Muito possivelmente o tenista já tem uma ressonância do pé e que não acusa fascite ou qualquer outra lesão. Não havendo lesão, continua a treinar e jogar, mas a dor também persiste ´sem explicação´. Alguns diagnósticos ‘fora da caixinha’ são: fratura por sobrecarga óssea, bursite no pé (muitos acham que só existe bursite no ombro), pinçamento de nervo no pé ou na coluna, como por exemplo uma hérnia de disco lombar, trombose venosa, lesão de outros tecidos do pé.

Esse é só um exemplo. É necessário pensar em pelo menos outro diagnóstico para cada lesão comum. O excesso de confiança em apenas um diagnóstico é muito arriscado. Um médico conhece, em média, 300 diagnósticos diferentes num universo de milhares deles, ou seja, a chance de não saber ou de errar o diagnóstico é maior do que acertar e por isso é importante que todos colaborem para que sejam aplicados os melhores conhecimentos, procedimentos diagnósticos e terapêuticos.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor deixe seu comentário!
Por favor preencha seu nome