Fisioterapeuta por dez anos na Copa Davis, Ricardo Takahashi critica incapacidade de profissionais, inclusive técnicos e jogadores

Desde a década de 90, a ciência tem evoluído a passos largos na área de prevenção de lesões esportivas. O Brasil dispõe de grandes pesquisadores, porém, a eficácia nesse trabalho exige conhecimento de diversos profissionais que cercam um time ou um atleta. No caso do tênis, esse acompanhamento deve ser feito de maneira separada com cada jogador para otimizar os resultados, mas deixa a desejar pela falta de capacidade dos envolvidos, segundo o fisioterapeuta Ricardo Takahashi.

Ricardo Takahashi
Foto: Divulgação

Com a experiência de ter feito parte da equipe brasileira na Copa Davis por 10 anos, entre 2002 e 2012, e do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) nas duas últimas Olimpíadas, Takahashi critica a forma como se trata o tema no tênis. Para ele, o ideal é que o atleta seja acompanhado por equipe multiprofissional e que cada especialista contribua para a prevenção de lesões, seja controlando a carga de treinamentos, alimentação ou melhorando o gesto esportivo e a qualidade do movimento. “Isso demanda um planejamento e conhecimento específico de cada membro. Os profissionais não precisam viajar com o tenista, só que ele deve ter um acompanhamento e orientação”, explica.

A despeito dessa recomendação, nessa entrevista exclusiva à Winner ABC, o fisioterapeuta – que deu palestra na academia Tenis & Cia de Santo André, no fim de maio – critica o despreparo de boa parte dos profissionais e até dos atletas para entender o que é certo e errado. “O que vi pelo Brasil nos últimos anos é que se treina e joga muito, mas sem qualidade. Sabemos que uma das causas das lesões é o aumento de volume e intensidade de forma repentina”. Ricardo Takahashi também dá dicas aos amadores. Confira mais:

Ricardo, fale sobre como o tema prevenção de lesões é encarado por tenistas, técnicos e outros envolvidos na modalidade, desde o amadorismo até o profissionalismo. O senhor acredita que não se dá a devida importância ao assunto no país ou isso tem mudado?

Ricardo Takahashi
Foto: Divulgação

Infelizmente, esse tema ainda é desconhecido pela maioria da população, seja de atletas, comissão e entidades. Atualmente se fala muito e se faz pouco. Creio que as pessoas devem achar que no tênis se trabalha com equipe multidisciplinar, que é individualizado e focado em técnica, mas está bem pior do que é no futebol. Não podemos generalizar, obviamente, mas a situação está caótica.

Temos academias, clubes e quadras, mas não existe um centro de formação de tenistas de alto rendimento no país. O que pensar de prevenção? Apesar disso, com certeza está melhor do que há 10 anos.

Em geral, do ponto de vista de custo/benefício, a prevenção é vantajosa e mais barata em relação ao tratamento de lesões já estabelecidas, além de as intervenções preventivas possuírem um potencial para auxiliar na melhora do desempenho do atleta.

Qual é a melhor maneira de se prevenir lesões? Explique.

A resposta dessa pergunta vale milhões de dólares. Primeiramente, gostaria de dizer que o risco de sofrer uma lesão não é e provavelmente nunca será nulo. Existem vários fatores que interagem para que uma lesão ocorra e dificilmente conseguimos controlar todos eles. O que fazemos é reduzir o risco ao máximo, avaliando o atleta individualmente e controlando os fatores que temos conhecimento. As intervenções preventivas podem ser específicas para cada tipo de lesão, mas o ideal é pensarmos no atleta como um todo, por isso a avaliação ampla e específica é fundamental. Em geral, manter uma boa mobilidade das articulações, força e controle muscular, utilizar equipamentos adequados e customizá-los para a prática esportiva e controlar a carga de treinamentos são formas de prevenir as lesões esportivas.

Ricardo, se fala muito em alongamento, musculação, pilates, prática de outros esportes, mas a prevenção vai muito além, correto?

Com certeza, a prevenção de lesões é algo complexo. Não existe uma fórmula mágica com que conseguimos prevenir todos os tipos de lesão com uma única intervenção. Por isso, a avaliação individualizada é tão importante. Sobre as modalidades citadas, pelo prisma da ciência, hoje sabemos que o alongamento tradicional não é capaz de prevenir lesões. Sabemos também que a diversidade na prática esportiva, ou seja, fazer mais de um esporte pode ser interessante, pois em alguns estudos foi demonstrado que essa diversidade ajuda na proteção.

Ricardo Takahashi
Foto: Divulgação

Até que ponto a carreira de um jogador profissional ou até a trajetória de um amador pode ser prejudicada sem o acompanhamento de especialistas?

O calendário de competições no tênis exige muito do atleta e as lesões podem impactar em diferentes esferas da vida do atleta. Uma lesão não somente impede o jogador de treinar e competir, mas também apresenta repercussões negativas na esfera psicossocial e econômica, comprometendo a saúde e qualidade de vida. Por isso, acredito que a prevenção de lesões é fundamental e não pode ser atribuída a um único profissional de saúde. O ideal é que o atleta seja acompanhado por uma equipe multiprofissional e que cada especialista, dentro de suas competências, contribua para a prevenção de lesões, seja controlando a carga de treinamentos, a alimentação, a saúde mental ou melhorando o gesto esportivo e a qualidade do movimento. Acredito que sozinho o tenista não conseguirá prevenir lesões, pois isso demanda um planejamento e conhecimento específico de cada membro da equipe multiprofissional.

Existe alguma parte do corpo do tenista que exige mais cuidado, onde as lesões são mais comuns e por isso é preciso sempre ter uma atenção especial?

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, a maior parte das lesões entre os tenistas profissionais acomete o membro inferior, porém, essas lesões normalmente se devem a um trauma (queda, entorse, laceração). As lesões de membros superiores, apesar de menos comuns, normalmente são lesões por sobrecarga, que podem estar ligadas ao excesso de treinamentos e repetição e também

a uma técnica inadequada. Claramente temos que estar atentos ao corpo como um todo, mas acredito que, pelas características das lesões, o fisioterapeuta deve dar uma atenção especial ao ombro, cotovelo e punho dos atletas. O cotovelo do tenista acomete somente os amadores.

*referência: Christopher E. Gaw – Clin J Sport Med 2004

Os treinamentos são cada vez mais intensos e, por consequência, há o risco das lesões. Como equilibrar essa equação treinamento e prevenção? E falando mais do amador, como ele pode saber seu limite, a hora de “tirar o pé” para não ter uma lesão?

Podemos dizer que o tênis tem passado por mudanças de padrão (estilo de jogo, capacidades físicas), mas para cada indivíduo se atribui o que melhor se adapta a ele. Por exemplo, se o Federer fosse forte como o Nadal, jogaria igual ou melhor do que hoje?

O que eu vi no últimos anos é uma falta de padrão pelo Brasil afora, ou seja, se treina e joga muito, mas sem qualidade.

Ricardo Takahashi
Foto: Divulgação

Sabemos que uma das causas de lesão é o aumento do volume e/ou intensidade, ou seja, se você mudar o treino (carga, tipo) repentinamente, correrá um grande risco de lesão. Será que esses fatores são controlados pela maioria? Hoje é possível saber qual a carga ótima de treino de força e potência. O NARSP (Núcleo de Alto Rendimento Esportivo de São Paulo), coordenado por Irineu Loturco, faz esses testes e são gratuitos, mas eu tenho a absoluta certeza de que a maioria dos atletas juvenis e profissionais treina com cargas empíricas, que não ajudam na performance e podem até causar lesões. O atleta, muitas vezes, é submisso, faz o que mandam e nem sabe para que serve aquele determinado treino, isso tem que mudar. Outro fator importante é a base técnica, são poucos treinadores que entendem de desenvolvimento motor e outras questões importantes, como biomecânica.

Para o tenista amador, o recado é: escute seu corpo. Muitas vezes sentimos uma dor leve e seguimos em frente, porém, aí pode ser o sinal do início de uma lesão que pode ser agravada, caso não seja respeitado o tempo necessário para a recuperação corporal.

Na sua opinião, muito dos problemas físicos passam pelo hábito de alguns tenistas, especialmente os amadores, de entrar em quadra, jogar e ir embora, sem se interessar em fazer algo complementar?

Sem dúvida, a maioria dos atletas, principalmente no nível amador, somente se preocupa em jogar e acaba fazendo isso com uma frequência superior àquela que seu corpo está preparado para lidar.

Antes de dar uma carga alta de treinamentos e jogos ao nosso corpo, temos que prepará-lo adequadamente e isso quase nunca é feito. Por esse motivo, a avaliação individualizada é tão importante. A avaliação biomecânica também é fundamental, pois também temos que atentar se o atleta está executando os movimentos de maneira adequada.

E sobre os profissionais? Muitos não têm um acompanhamento porque encaram a equipe multidisciplinar como um custo e não como um investimento. (com a contribuição de Deric Fukuda e Luiz Augusto Borges)

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