Jovem que treina em São Bernardo aceitou convite de universidade dos Estados Unidos, mas antes foca Grand Slam

No Brasil, os jovens não têm a garantia de uma carreira de sucesso no tênis, seja pela falta de apoio ou dificuldades do próprio esporte. Há vários e vários exemplos de jogadores diferenciados que ficaram pelo caminho. Diante desse cenário, aliar a raquete aos estudos, os dois em alto nível, é a escolha mais segura para um futuro promissor. Esse vai ser o caminho de Ana Paula Melilo, um dos talentos emergentes do ABC e que sonha em participar do próximo Aberto da Austrália.

Ana Paula Melilo
Foto: Julian Alhadef

Com 16 anos, Aninha – como é conhecida – recebeu convite  da universidade North Florida, dos Estados, e já tem data para deixar o país: agosto de 2018. Nome principal da equipe do ex-profissional Juninho, que treina no São Bernardo Tênis Clube, a juvenil ganhou 100% de bolsa e não vai precisar se preocupar com a questão financeira na terra do Tio Sam. Além de buscar a graduação em business, curso que é referência na instituição de ensino, ela ainda desfrutará de hospedagem, alimentação e viagens. Fora a estrutura de ponta.

Ana Paula Melilo
Foto: Divulgação

“Tenho que terminar o terceiro ano do colégio e só depois eu vou. Preciso ver as minhas provas (tirar as notas obrigatórias nos exames de inglês), e manter os meus resultados em quadra”, explica Aninha, que apresenta maturidade acima da média para a idade. “Se eu largasse tudo para jogar o profissional, querendo ou não, minha mãe teria que bancar tudo isso e ficaria uma pressão forte em mim (pelos resultados). Indo para lá, me dou uma segurança e aliviada nela, além de tirar a pressão, porque não sabemos que não há patrocínio no Brasil”, enfatiza.

Juninho diz que a pupila tomou a decisão perfeita, sairá da zona de conforto da América do Sul e destaca as viagens curtas e pagas para a participação em campeonatos. “Além de jogar uma divisão forte lá, ela vai poder disputar o profissional paralelo. A Aninha estará a duas horas dos torneios e não vai gastar um real. Isso garante mais cinco anos tranquilamente no tênis. Vai ter tudo na universidade, como por exemplo jogadoras de alto nível para treinar o tempo inteiro. Essa mudança para lá abre a cabeça, amadurece mais e a chance de crescimento é maior. Tirando que já tem um plano B para tocar a vida, caso não dê certo no tênis”, enumera o treinador, acrescentando que a equipe de Aninha terá tenistas de várias nacionalidades, tais como russas, alemãs, mexicanas e outras.

Outro ponto positivo para a juvenil aceitar o convite é o fato de a técnica da equipe de North Florida ser brasileira. Aliás, Aninha concorreu pela vaga com outras atletas e impressionou pelo desempenho em momentos cruciais do jogo, fazendo valer o trabalho do psicólogo Heitor Cozza. Como já é costume, os americanos se baseiam nas estatísticas, como por exemplo as duas semifinais de ITF (Federação Internacional de Tênis) que a tenista fez no ano passado.

Ana Paula Melilo
Foto: Divulgação

“A Aninha se comporta melhor em momentos decisivos do que a outra jogadora (concorrente), que tem ranking melhor. Nos Estados Unidos é tudo super tiebreak para rodar mais rápido, porque são vários jogos. Sendo assim, o tenista tem que ser competidor, ter cabeça, porque são poucos pontos em disputa. A outra menina não é estável, foi desclassificada em um campeonato”, comparou Juninho, ao falar sobre o critério de escolha.

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Restando mais de um ano para a data estipulada para a mudança, Aninha tem de seguir acumulando bons resultados para não correr o risco de perder a oportunidade. Sempre trabalhando com metas, característica de campeões, a jovem e sua equipe colocaram na cabeça o objetivo de entrar na chave do Aberto da Austrália, previsto para o início de 2018.

“Como ela foi bem nos ITF de 2016, queremos entrar no quali da Austrália”, resume Juninho. “Fui ver a lista do quali da Austrália dos últimos anos, dá para entrar se eu baixar de 200 (no ranking juvenil). Não custa nada sonhar”, acrescenta Aninha.

Pela realidade do tênis, apenas o tempo mostrará se Aninha vai ter vida longa da modalidade, mas a sua trajetória já pode servir de exemplo para quem procura um caminho melhor por meio desse esporte.


GUERREIRA, JOGADORA É “VIDRADA” EM TREINOS DE PROFISSIONAIS

Ana Paula Melilo
Foto: Rodrigo Rocha

Um dos fatos mais marcantes da curta carreira de Aninha foi ter participado da inauguração da arena olímpica do Rio de Janeiro, antes de os melhores do mundo entrarem em cena. Em evento com as principais tenistas do Brasil em sua categoria, a jovem testou as quadras e a estrutura do complexo olímpico.

“Joguei na quadra 2, que também acabou sendo usada na Olimpíada. É algo que não estou habituada, estava aquecendo em uma quadra e ao lado estava o Bellucci e o Monteiro, por exemplo. Não conversei, mas cumprimentei os caras, e vi o aquecimento para ver se eu fazia algo parecido”, conta a carioca, que veio para São Paulo ainda criança.

Ana Paula Melilo
Foto: Divulgação

A tenista diz que é aficionada, louca, por treinamento de profissionais. “Já vi treinos da Muguruza, da Safavora, do Cilic, do Nishikori. É diferente. Aprendo mais nessas horas do que vendo jogo”, garante a atleta. “Fui no Rio Open anos atrás e vi o do Nadal, que é intensidade do início ao fim. Dá uma boa ideia, porque você vê que está no caminho certo, que está fazendo as mesmas coisas que eles. Vi que aquecem muito com o elástico, principalmente a Muguruza e o Nadal, e peguei isso para mim.”

Questionado sobre a principal qualidade de Aninha, o técnico Juninho não hesita. “Ela é guerreira, gosto disso nela. Não é porque a mãe pode proporcionar uma vida mais confortável, ela faz valer a pena cada centavo, ou cada minuto que a equipe disponibiliza. É adulta”, elogia o ex-profissional, que descobriu a jogadora no Juventus e desde então oferece um treino de nível profissional. São sete horas diárias voltadas ao tênis, preocupando-se com todos os aspectos que interferem no jogo.

“A Aninha não tem um golpe impressionante, mas que ela use isso (o fato de ser guerreira) porque é um golpe também e ganha jogo”, completa o treinador.

A juvenil lamenta pela falta de campeonatos fortes no Brasil, um dos fatores que motivaram aceitar o convite dos Estados Unidos, e diz em que pontos têm de evoluir no tênis. “Preciso jogar mais dentro da quadra, deixar isso natural. Às vezes canso e volto. Melhorei taticamente em ficar mais na cruzada, sem rifar bolas na paralela”, comenta Aninha, com a postura de uma profissional.

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