Na véspera de completar 18 anos, O BERNARDENSE superou maratona de jogos e compromisso no exército para se despedir do juvenil com chave de ouro

Enrique-Bogo
Foto: Divulgação

Poucos conseguem, mas todo aspirante ao profissionalismo sonha em se despedir do juvenil com o 1º ponto no ranking da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais). Entrar nesse seleto grupo fortalece a parte mental, tão importante para vencer no tênis, e dá o impulso para não desistir da carreira. Foi o que aconteceu com Enrique Bogo, representante de São Bernardo em torneios internacionais.

“Meu 1º ponto veio em 2013 e foi no meu primeiro ano dedicado apenas ao o tênis. Tinha me formado no ensino médio na temporada anterior e rolava aquela pressãozinha de não estar em nenhuma faculdade, de não ter optado pelo caminho seguro do universitário”, lembra Bogo.

A oportunidade derradeira apareceu no Brasil, em um future realizado em uma academia de frente para a Marginal Tietê. No entanto, o próprio tenista diz que não tinha jogo para alcançar a façanha. As circunstâncias impostas a ele só deixaram a tarefa mais complicada.

Enrique-Bogo
Foto: Divulgação

“Na estreia, me colocaram para jogar justo na quadra de cara para a Marginal, em meio a um furacão. Foram 3h40 de uma partida super desgastante emocionalmente, de baixo nível técnico devido a todos esses ingredientes, que consegui fechar apenas no 11º match point em 7 a 5 (no terceiro set.)” Aquela era apenas a primeira rodada do qualifying e já estava programada jornada dupla para o dia seguinte.

“Haja ‘dorflex’. Mas acho que não deu muito certo, pois cheguei na academia não só com o corpo todo dolorido, mas também mancando por uma bolha enorme no pé.” Mesmo sem estar 100%, Bogo se aproveitou de um descontrole emocional do adversário, que praticamente lhe entregou o jogo após abrir um set a zero. Ainda faltava a final do quali.

“O preparador físico estava lá e só faltou ele fazer chover para me deixar em condições. Fez uma varredura em minhas pernas (massagem com gelo), que as deixaram revigoradas, arranjou um suplemento recuperativo, algo que nunca tive pelo alto custo, com um atleta da chave principal que tinha amizade e também conseguiu uma maneira de isolar a bolha de modo que eu não mancava mais”, enumerou. O bernardense estava recuperado e, para melhorar, o duelo foi transferido para quadra coberta. Os pontos foram encurtados e o triunfo veio por um duplo 6/2.

Uma nova vitória separava Enrique Bogo do 1º ponto na ATP.” As expectativas cresceram muito e logo após eu sair de quadra recebi a notícia que, dentre os 31 possíveis oponentes na chave, iria enfrentar bem um wild card juvenil também sem ponto”, recorda o tenista, hoje com 20 anos. “Todos a minha volta se animaram muito com a oportunidade e escutei milhares de ‘vai pontuar’ na orelha antes desse jogo, o que  incomodou pela minha história de sempre ter a responsabilidade de ganhar.”

A sorte do jovem atleta parecia mudar de direção, afinal ganhou um dia de descanso antes da partida mais importante da curta carreira. Entretanto, havia um compromisso no exército justo naquela data. Bogo acordou às 6h e ficou três horas de pé, sem se mexer, antes de ser dispensado.

Mesmo com esse obstáculo, não existia tempo para lamentação e ele partiu para a “batalha” da vida. Planejou-se para trocar o máximo de bolas no início para sentir o jogo, mas acabou surpreendido pelo saque e voleio do rival. O tenista do ABC manteve a concentração, fechou o primeiro set e abriu 4 a 1 no segundo, só que o negócio nesse esporte não costuma ser tão simples.

“Perdi o tiebreak nesse segundo set e estava prestes a perder o jogo da minha vida, que estava em minhas mãos. Que desespero. No terceiro, a partida ficou equilibrada, porque agora ele também estava perto de pontuar, ambos estavam e não é qualquer um que consegue deslanchar nessa hora. Lembro que cheguei a sacar em 15-40 no 4 a 4, praticamente duplo match point contra, ele cometeu erros bobos e entrei para a ATP com mais um 7 a 5 na ‘negra’”, comemorou Bogo, que completaria 18 anos no dia seguinte. Pena que o adversário na segunda rodada era Ricardo Hocevar, que eliminou o novato sem dificuldades.

“Mesmo não tendo um nível suficiente para defender aquele ponto na época, agradeço muito tudo o que aconteceu, pois talvez, se não fossem todas essas coincidências, hoje eu não estaria nessa jornada, poderia estar cursando uma faculdade qualquer em algo que não me faz feliz. Seguiria o caminho de muitos que largaram o esporte nessa idade devido a todas as responsabilidades que aparecem”, desabafou o bernardense, que hoje tenta voltar a pontuar na ATP.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor deixe seu comentário!
Por favor preencha seu nome