Enrique Bogo tem a meta de conquistar Roland Garros, mas aprendeu bastante e é exemplo de como o tênis competitivo é duro

Enrique Bogo trabalha com a meta de conquistar Roland Garros, mas o tempo e as pancadas sofridas na carreira mudaram a forma de pensar do tenista do ABC. Hoje, sem patrocinadores e perto de fazer 21 anos, ele faz questão de aconselhar aqueles que estão iniciando no alto rendimento.

Antes de se profissionalizar, o atleta – que conheceu a modalidade sob influência do pai – só queria ser o melhor da própria categoria. O espírito competitivo não permitiu que se desenvolvesse como gostaria e precisava.

“Após dominar as categorias da Liga ABC, entrei na Federação Paulista, que é o caminho natural que todos fazemos, e lembro de ter perdido apenas um jogo em 71 disputados na 12 anos Masculino B, resultando em um número 1 absoluto. E foi aí que começaram as escolhas, escolhas que geram resultados e que no fim das contas definem o porque de estarmos onde estamos”, explica Bogo.

Para o tenista de São Bernardo, bastava apenas liderar o ranking paulista. Por esse motivo, ignorou conselhos para subir de categoria e, assim, jogar em um nível mais forte para “perder e tomar pancadas”, o que seria fundamental para avançar casas no tênis. Não escutou e hoje lida com as consequências.

“Por um lado, tenho cinco troféus de melhor do ano na estante e, por outro, passei o juvenil preso, jogando por resultados e deixando de descobrir muito do potencial por simplesmente não me permitir falhar. Aquele adversário que se arriscou em uma categoria acima se acostumou com a derrota e desenvolveu seu potencial muito mais do que eu”, lamentou Enrique Bogo. “Os estímulos que ele recebeu foram muito mais exigentes do que os meus. Hoje, eu entro em quadra para o quali de um future com um rival da mesma idade e 50% de chances para cada lado. Do que adiantou ser número 1 por tantos anos? Por isso, se eu fosse aconselhar os meninos do ABC, diria para não jogar tanto por resultados e sentir que já está com qualquer sobra na categoria”, complementa.

Enrique Bogo
Foto: Divulgação

Com três anos no circuito profissional, o atleta que já figurou no ranking da ATP diz que seu jogo ainda não flui naturalmente e lamenta por não ter percebido que os riscos, que tanto evitou, estão “disfarçados” de oportunidades de crescimento e aprendizado. “Posso falar que conquistei meu 1º ponto na ATP dessa forma, com essa mentalidade pequena, mas uma hora a conta chega. Cheguei em um limite, ou jogava para frente ou não teria como, e nessa perdi nove chaves principais de future na mesma temporada para tenistas entre os 1000 do mundo, logo depois de pontuar. E assim foi, passou um ano e não consegui defender meu ponto”, mostra Enrique Bogo, admitindo que entrou em uma zona de conforto e não se desenvolveu como deveria.

“Eu não seria quem sou e não estaria no lugar onde estou se não fossem os erros cometidos lá atrás. Por isso, sempre que dou de cara com uma situação que me incomoda, ou com algo que deu errado, respiro e me pergunto: ‘O que tenho a aprender com isso?’ Logo encontro uma perspectiva positiva do ocorrido e sigo em frente cada vez mais consciente e maduro. Assim, já venho colhendo novos resultados e criando meu espaço no mundo do tênis”, ensina o jogador que é de São Bernardo e treina na academia Tennis Square, no Ipiranga.

Para Bogo, pontuar nos dias atuais é mais difícil porque não há tantos torneios no país e os gringos, especialmente os argentinos, se inscrevem nas chaves e chegam em condições físicas e emocionais suficientes para atrapalhar a vida dos brasileiros. “Ter um ou dois pontos não muda praticamente nada, você continua tendo que ir para o quali precisando vencer três partidas duríssimas para entrar na chave”, avisa o tenista, tirando a ilusão daqueles que acham que basta apenas somar um ponto para ver a trajetória na modalidade decolar de uma para outra. “Para se consolidar no ranking, você precisa ser realmente muito capacitado. E com certeza são poucos que conseguem reunir perseverança, resiliência, fé e as habilidades técnicas, físicas e mentais”, enumera.

Baseando-se na desistências de tenistas em início de carreira, Enrique Bogo avalia que falta consciência à atual geração de que o sucesso não vai chegar tão rápido como se imagina. “Com o avanço da medicina, os atletas não se lesionam tão cedo e perduram por mais tempo. Com o tênis tornando-se um esporte muito físico, os mais velhos levam vantagem e geralmente você só chega no auge físico com 26 anos, fora a experiência em encarar os momentos decisivos e a visão de quem passou por isso”, opina Bogo.

Sem lamentar a falta de patrocinadores, o tenista de São Bernardo se concentra na própria preparação e no treinamento direcionado para atingir o objetivo principal no tênis: levantar o troféu de campeão de Roland Garros. “Na fase do planejamento que estou, não vejo como necessidade a participação em campeonatos e, sim, no aprimoramento nas áreas mental, emocional, física e técnica, nessa ordem de importância. Pretendo alcançar a excelência nessas áreas para, quando chegar aos meus 25, 26 anos, eu tenha condições de enfrentar qualquer adversário que apareça pela frente.” O conselho está dado, Bogo.

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