Estagnado na visão de ex-jogadores e com menos verba, tênis brasileiro apresenta muitos desafios para nova gestão, principal problema é transição do juvenil para o profissional

O tênis brasileiro passa por mudanças. Em abril, um novo presidente assume a CBT (Confederação Brasileira de Tênis) pressionado pela responsabilidade de levantar a modalidade e sem os cofres cheios de outrora. O contrato com os Correios foi renovado, mas por valor 76% inferior. O último balanço da Confederação, de 2015, mostra o tamanho do prejuízo que se apresenta: a entidade recebeu R$ 8,6 milhões da estatal apenas naquele ano – contra os R$ 4 milhões previstos para os próximos 24 meses.

Thiago Alves
Foto: João Pires / Fotojump

Na prática, as novas cifras acertadas com o principal patrocinador não prejudicam os jogadores consolidados ou que já despontam nos rankings profissionais, tais como Thomaz Bellucci, Thiago Monteiro e os duplistas Bruno Soares, Marcelo Melo e André Sá. Todos se viram com patrocinadores próprios e premiações de campeonatos, estão estabilizados e não dependem desse dinheiro. A preocupação de quem faz e acompanha o tênis no país recai sobre a formação, a tão falada e criticada transição do juvenil para o profissional. Mesmo com os milhões dos Correios para bancar viagens, poucos atletas têm furado essa barreira.

“Depois da minha aposentadoria, não achei que as coisas mudaram. Meu pensamento continua o mesmo a respeito do tênis brasileiro. Há muitas coisas a serem feitas e desperdiçamos algumas oportunidades nesse período de dois anos (que parou de jogar). Seguimos no mesmo ritmo de sempre.” A declaração é de Thiago Alves, ex-profissional que é uma das vozes importantes da modalidade e que se especializou no treinamento de juvenis após deixar o circuito.

Thiago Alves
Foto: Divulgação

O ex-top 100 avalia que o atual presidente da Confederação Brasileira, Jorge Lacerda, teve os méritos de levar o país para a elite da Copa Davis e por trazer os Correios para o tênis, mas vê o esporte estagnado. “Tivemos a  diferença nas duplas, mas não foi por causa da CBT. Os duplistas já são veteranos, não foram feitos por trabalho da Confederação. Não foi realizado nada de diferente e continua do mesmo jeito”, repete.

Quando se fala em estagnação do tênis, logo se pensa na formação e não há trabalho bem feito sem profissionais preparados e sem estrutura. Entende o problema? É difícil fechar essa conta.

“Os nossos tenistas têm a mania de achar que as coisas são mais fáceis e, na hora que encontram a dificuldade, ficam estacionados, perdem muito tempo e passa o momento deles. Não conseguem passar por essa barreira do profissionalismo. A postura tem que mudar muito, vejo muito atleta perdido nessa transição (a partir do juvenil). Os jovens precisam de bons treinadores para ajudar, infelizmente não temos muitos ex-jogadores trabalhando nesse momento, que deveriam estar mais próximos desses meninos. Seria interessante ter um elo de comunicação com a Confederação, com os veteranos ajudando e mostrando os caminhos”, lamenta Alves, tocando em um ponto já dito por Fernando Meligeni em entrevista recente à Winner ABC: os ex-profissionais não tiveram espaço na gestão de Lacerda.

“As coisas vão evoluindo naturalmente pelo conhecimento que vai se adquirindo, mas são poucos ex-atletas envolvidos no tênis, isso faz muita diferença. Muitos estão apenas em projetos sociais”, completa Pablo Albano, argentino radicado no Brasil há quase 15 anos e que conhece como poucos o que é feito aqui, afinal, já treinou uma série de jogadores – neste momento exerce a função de coordenador geral do departamento de tênis do Esporte Clube Sírio.

Thiago Alves
Foto: João Pires / Fotojump

Para Thiago Alves, também falta um Centro de Treinamento para impulsionar os jovens, algo que pode se concretizar com a Arena do Tênis das Olimpíadas do Rio de Janeiro, e uma metodologia de ensino. Esse é o caminho que ele segue em São José do Rio Preto, no Harmonia Tênis Clube. “Não se faz tenista em oito anos. Precisamos criar uma metodologia de ensino, na qual os garotos sigam uma linha de pensamento e didática (de treinamento), como tem na França. Não adianta pegar os R$ 8 milhões, investir em alguns nomes e achar que vai dar certo. Precisamos de continuidade”, pede o paulista de 34 anos. “Além da metodologia, é necessário pensar na capacitação de novos técnicos realmente qualificados para treinar esses meninos na transição. Quando está lá no profissional tudo fica mais fácil, o difícil é fazer em baixo.

Se a gente quiser mais atletas, o trabalho deve ser feito na base.” O sonhado boom das categorias de base também passa por campeonatos mais fortes no Brasil. Com a crise econômica, os jovens não têm conseguido viajar com tanta frequência para o exterior, pré-requisito fundamental para crescer na carreira. Ficando aqui, disputam torneios fracos e não evoluem. Nesse cenário, os meninos não encontram saída. “Precisamos criar um circuito juvenil mais forte, hoje em dia está defasado. Os bons tenistas não jogam mais torneio aqui dentro. Precisamos dar incentivo para esses jovens atuarem aqui.

Thiago Alves
Foto: João Pires / Fotojump

Isso é muito importante. Na minha época, todos disputavam campeonatos no Brasil, sempre competindo, um puxava o outro e todos cresciam”, recorda Thiago. Pablo Albano concorda com a visão sobre o nivelamento por baixo dos eventos nacionais e cita um exemplo sintomático. “Você precisa de lugares competitivos, com um querendo ser melhor do que o outro. Lá fora é diferente. Já enviei 500 meninos para uma clínica na Argentina e a diferença era notória. Quando estavam lá, queriam fazer bonito e se esforçavam. Quando voltavam, também voltavam no ritmo de antes”, contou o argentino, reforçando a necessidade de se capacitar treinadores. “Você ter profissionais compromissados, pessoas com vontade e que criam sonho na cabeça dos meninos é fundamental para se formar bons jogadores.” Rafael Westrupp substituirá Lacerda na presidência da Confederação Brasileira em abril e a expectativa de quem milita na modalidade é de que futuras gerações sejam bem preparadas, para que o tênis, enfim, entre na fase da massificação. Esse processo passa pela ajuda dos ex-profissionais.


PERFIL

Thiago Alves
Foto: João Pires / Fotojump

Figura essencial para o desenvolvimento do tênis brasileiro, Thiago Alves é sempre lembrado por ter feito jogos expressivos na carreira. Em 2008, por exemplo, brilhou contra Roger Federer no US Open. Por isso, o paulista deixou a impressão de que poderia alcançar um ranking maior.

“Não é fácil para nós, sul-americanos, estarmos sempre indo para a Europa ou os Estados Unidos, sempre fazendo viagens longas, manter a energia é muito complicado. Ainda mais para um cara com 1,77m como eu, que precisava correr bastante, estar com o tanque cheio e acabava sentindo. Isso fez com que meu ranking não fosse melhor, como as grandes partidas que fiz mostravam que poderia. Mas deixei a minha carreira com a sensação de dever cumprido”, garante.

Depois da aposentadoria, Thiago engatou a profissão de técnico e se orgulha de Matheus Alves, considerado hoje um dos principais juvenis do Brasil. O quartel general do ex-top 100 fica em São José do Rio de Preto, sua cidade natal. “As coisas têm andado sempre de maneira positiva para mim. Estou trabalhando com esse treinamento há um ano e três meses. Comecei pequeno e as coisas vêm crescendo. O Matheus tem se destacado no cenário juvenil. Estou com mais de 20 atletas, temos equipe competitiva. O desafio é sempre duro”. E assim, Thiago e o tênis continuam abraçados.

Com abundância de bons tenistas, por que a Argentina está à frente do Brasil?

No ranking divulgado pela ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) após o fim dos principais torneios de 2016, a Argentina tem nove jogadores entre os 100 do mundo e o Brasil apenas três – e olha que não tínhamos um trio nessas condição, juntos, há cinco anos. Mais: esta temporada ficou marcada pelo título inédito dos vizinhos na Copa Davis e o ressurgimento de Juan Martin Del Potro, medalha de prata na Olimpíada do Rio de Janeiro. Essa diferença já vem de tempos. Os hermanos têm mais nomes em quantidade e, consequentemente, em qualidade também. Mas por que isso acontece?

Para obter a resposta, a Winner ABC entrevistou Pablo Albano, um dos poucos que compreende tão bem o tênis nos dois países. Morando no Brasil desde 2002, quando se aposentou da carreira de atleta, ele já foi técnico de jogadores do quilate de Bruno Soares, Flávio Saretta e Alexandre Simoni.

Pablo Albano
Foto: João Pires / Fotojump

“Conheço os brasileiros da época de Nelson Aertes, Marcelino, Cássio Motta, Jaime Oncins, Fernando Roese e acho que foi a melhor época do país. Depois teve o Guga, que movimentou muita coisa aqui dentro. Agora tem os duplistas. Não sei se vi evolução no tênis brasileiro”, diz o ex-profissional, que atualmente coordena o tênis no clube Sírio, em São Paulo.

A modalidade se popularizou na Argentina graças ao surgimento de Guillermo Vilas, que brilhou entre os anos 70 e 80. Com quatro títulos de Grand Slam, alterou a realidade do tênis no país sul-americano. “Ele foi a figura que todos nós nos espelhamos. Fez o tênis conhecido dentro da Argentina, enraizando o esporte entre a população. O Vilas sempre foi um exemplo de trabalho, persistência, garra e entrega, e nos mostrou o caminho”, enumera Pablo Albano, lembrando do legado dessa história. “Vieram muitos e muitos tenistas que foram grandes, entre os 10, 15 do mundo. O bom é que tudo mundo treinava no mesmo lugar, na mesma cidade, se dividindo em dois ou três lugares no máximo. Um treinava com o outro e o nível se elevava”, conta o ex-tenista, que presenciou a “era Vilas”. Com Gustavo Kuerten, o Brasil teve oportunidade idêntica de alavancar a modalidade, mas não foi o que aconteceu.

Pablo Albano, que já representou o Tênis Clube de São Caetano em campeonatos, vê outra diferença entre Brasil e Argentina no tênis: a mentalidade dos jogadores. Na opinião do técnico, “aqui o tenista se perde no glamour de alguns poucos torneios bem jogados por ano”. “A Argentina sempre teve um parâmetro alto de ranking, ser 80 do mundo não deixa o atleta conformado. Você tem que ser bom, com ranking bom, para se destacar dentro da Argentina. Eles acreditam que podem estar entre os melhores, treinam e fazem pré-temporada juntos, se vive mais o tênis”, explicou o veterano. “No Brasil, a necessidade de ter um destaque nacional oferece situações para tenistas não tão bem ranqueados, como dinheiro e patrocínio, e se perde um pouco o foco. Na Argentina, você quer ser ambicioso, precisa de mais e isso acaba fazendo você evoluir no mental, no jogo, em tudo.”

Sobre Del Potro, ele diz que é um ponto fora da curva até na Argentina, pelo biotipo e por ter sido moldado em quadras rápidas. “Ele é bom e sabe que é bom. Não tem respeito por ninguém. Se estivesse fisicamente bem, poderia estar entre os quatro melhores do mundo tranquilamente. Ama o tênis, não desiste e não ficou nas glórias do que havia conquistado. Continuou a batalha, persistiu e está aí”, elogiou.

Se não tem o biotipo típico do argentino e prefere as quadras de cimento, Del Potro se assemelha aos compatriotas pela garra apresentada em quadra, como mencionado por Albano no início da matéria. Característica vista em jogadores de outros países, inclusive no Brasil, mas sem a frequência com que se testemunha na Argentina.

“Para ser melhor, você precisa elevar o seu nível de esforço. Você precisa ultrapassar seus limites, capacidades e se entregar. Quem consegue se entregar e respeitar a voz de comando da equipe, vai fazer a diferença. Se você relutar, você rema contra a maré”, opinou Albano.

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