Entrevistado Lourival Franchi – Especial para a Winner

Sério que estamos aqui dentro? Pois foi o que pensei naquele momento, há cerca de dois anos, na bilheteria que dava acesso ao All England Club. Olhando sem acreditar para a minha esposa, parecia até um sonho que não desejava que acabasse.

Tudo começou sem muita expectativa. Em viagem a turismo na cidade de Londres justamente no início do torneio de Wimbledon, colhi informações nada animadoras entre amigos e pessoas do meio do tênis sobre ingressos para o Grand Slam. Para piorar, eu só teria um dia para ver algum jogo, se é que fosse possível. O pessoal comentava ser quase impossível, pois se tratava de um clube privado e que os valores ainda seriam exorbitantes.

Mas, como todo bom brasileiro, pensei: ‘vou até lá na raça e seja o que Deus quiser’. Entrar no local já seria motivo de glória. Seria a minha primeira vez em um evento internacional e logo o mais charmoso.

Fomos à Europa em dois casais, meu irmão também estava presente com a esposa. Começamos pela Itália e subimos para Londres na sequência, quando fomos a um pub londrino e encontramos uma amiga do colégio que mora lá desde 2010. Perguntei sobre a possibilidade de estar em Wimbledon e o seu marido respondeu: ‘é possível, sim, vocês conseguirem nesse início (de torneio), mas é melhor vocês irem para o final da tarde’. Então, no dia seguinte, visitamos pontos turísticos e buscamos rumar para Wimbledon depois do almoço. Nos perdemos e fomos para um outro local, distante, chegando ao destino planejado por volta das 16h. Muitas ruas na região estavam fechadas e o acesso se dava apenas a pé, com uma boa caminhada. Passamos por um forte esquema de segurança e acompanhamos o fluxo das pessoas, sem saber nada sobre ingresso.

Voltas e voltas depois nos deparamos com várias entradas e guichês. Paramos em um desses acessos e questionamos se seria possível entrar. “Sim”, disse o rapaz. “Não querem assistir algum jogo?”. Na hora pensei que estivesse brincando, mas era real. O homem tinha ingressos de algumas quadras disponíveis, com exceção da central. Então, logo pegamos os bilhetes para as quadras 1 e 2, que também nos permitiam visitar outras menores e circular pelo clube. Melhor ainda, com valor abaixo do que é oferecido aos sócios – 25 libras. Jesus, quase cai duro para trás. Não estava acreditando naquilo. Olhei atônito para minha esposa e em menos de cinco minutos estava lá dentro. Segundo testemunhamos, não há venda de ingressos do lado de fora do complexo pelo fato de eles serem destinados aos sócios, como se fosse uma debênture. 

As flores lilás, os arranjos, os detalhes, a limpeza, o placar de madeira com todos os jogos e nomes dos tenistas. Não lembro de ter vivido tal emoção, parecia surreal, impossível. Mais do que um sonho. Tivemos o privilégio de assistir o menino, à época, Dominic Thiem contra o experiente Gilles Simon e ainda a Angelique kerber. Era a segunda rodada. Isso sem falar do famoso morango com chantilly e o quiosque de sorvetes da Haagen-Dazs.

Eu e meu irmão nos separamos, em função dos números marcados nos ingressos (cada sócio tem sua cadeira, como no caso desse que comercializou a entrada conosco). Ficamos distantes. Após o término desses jogos, ele ainda conseguiu ver a majestade Federer, pois lá dentro ainda tem um outro guichê que vende lugares vagos na quadra central por apenas 10 libras. A organização é tão eficiente, que, se um sócio/torcedor não retira o seu ingresso ou vai embora durante a partida, as vagas logo se abrem na bilheteria – os espectadores que saem antes do término do jogo deixam os cobiçados canhotos de entrada na cabine de venda. 

A bateria do meu celular havia acabado e, sem comunicação com meu irmão, não fiquei sabendo da possibilidade de desfrutar desse momento com o Federer em ação. Porém, junto da minha esposa, assisti ainda o jogo de Jack Sock na quadra 17, a menos de dois metros da linha. Fiquei passado com a velocidade da bola e dos jogadores, em um nível de tênis jamais visto de perto e de tamanha qualidade. Naquele instante, já era perto das 22h e a penumbra da noite pairava sobre a quadra.

Posso dizer que foi uma das melhores, senão a melhor surpresa da viagem e que marcou nossas vidas. Ainda sonho em voltar para Wimbledon.

Fotos: Divulgação

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