Pernambucana paga o preço por disputar apenas torneios de 1º porte em 2016, mas já passou por situações mais difíceis

Teliana Pereira
Foto: Cristiano Andujar

Em 2015, Teliana Pereira mostrou que há vida no tênis feminino brasileiro. Graças à pernambucana, a geração que vibrou com o tricampeonato de Gustavo Kuerten em Roland Garros testemunhou o primeiro título de WTA do país após 27 anos. A verdade é que a tenista se especializou em derrubar recordes, mas mesmo assim espantou a zona de conforto e traçou meta audaciosa para a temporada: jogar apenas torneios de 1º porte.

Sujeita a chaves complicadas desde a estreia, a destra perdeu muito e venceu poucos jogos no primeiro semestre. Insatisfeita, Teliana desabafou: “Já passei por situações bem mais difíceis do que esta na minha vida.” A história pessoal e profissional dá razão à jogadora, servindo de estímulo para o que vem pela frente – em especial a Olimpíada do Rio.

Teliana Pereira
Foto: Cristiano Andujar

Em entrevista exclusiva à REVISTA WINNER, a número 90 do ranking mundial se lembrou do desenvolvimento para o esporte em meio à infância complicada, quando se alimentar não era algo frequente para a família Pereira. A intimidade com o tênis veio por “linhas tortas”, a partir dos oito anos, época em que o pai aceitou um convite e se mudou para Curitiba, no Paraná. Lá, ele passou a trabalhar como servente de pedreiro em uma academia e, posteriormente, cuidando das quadras de tênis. Teliana era pegadora de bola. Inspirada no irmão Renato (que hoje é um dos seus técnicos, ao lado de Caio de Brito), logo pegou gosto pelo esporte.

“Tive que superar muitas dificuldades, assim como muitas pessoas em diferentes áreas. Acredito que a seriedade como encaro cada treino é que me fez chegar até aqui. Todos os dias tento fazer o meu melhor. Todos os treinos são como jogos importantes, nos quais estou muito concentrada e focada em fazer o melhor que posso”, ensina a atleta, hoje com 27 anos. “A luta que apresento em quadra, de não desistir em nenhum momento, com certeza tem ligação direta com o passado. As coisas nunca vieram de graça para mim. Tive que batalhar para conquistar o que tenho. Não sou diferente dentro de quadra.”

Teliana Pereira
Foto: Cristiano Andujar

Recentemente, no mês de abril, o conceituado New York Times destacou em matéria especial a história sofrida de Teliana, trazendo até uma entrevista com Guga. “Fico impressionado com a capacidade que ela tem em superar desafios na vida”, disse o ex-número 1 do mundo. Na mesma matéria, o periódico comparou a reviravolta na vida da jogadora ao ocorrido com o sérvio Novak Djokovic, que cresceu em um país devastado pela guerra, e Serena Williams – que convivia em um ambiente hostil.


Obstáculos e São Bernardo

Mesmo com poucos recursos, a pernambucana se profissionalizou e foi subindo degraus em  torneios da ITF, considerados de segunda linha. Em 2008, disputou o qualifying de Wimbledon, um sinal claro de que estava em franca evolução. Na temporada seguinte, porém, operou por duas vezes o joelho, o que atrapalhou os planos de encarar as melhores do mundo.

Teliana Pereira
Foto: Cristiano Andujar

O momento era complicado, mas a brasileira não desistiu e daí entrou São Bernardo em sua vida. Teliana já representou a cidade nos Jogos Abertos do Interior. “Disputei os Abertos por São Bernardo pela primeira vez em 2011. Estava voltando de lesão, o Edmilson (Silva, técnico) me procurou e disse que queria montar uma equipe forte. Eles me ajudaram financeiramente e foi importante naquele momento. Não pude jogar em 2014 e 2015 porque tive campeonatos importantes, mas espero voltar futuramente”, deixa em aberto a tenista.

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As lesões delicadas ficaram para trás, ou seja, mais um obstáculo eliminado. “O atleta de alto nível precisa saber lidar diariamente com as dores. Difícil alguém atuar 100% sem dor. Faço um trabalho diário de preparo físico e fisioterapia para prevenção de lesão. Nos últimos cinco anos tive duas lesões que me tiraram por dois meses. É pouco perto da maioria”, comemora a 90ª colocada na WTA, consciente dos limites do corpo. “Meu calendário é bem planejado justamente para não sobrecarregar o físico e machucar”, emendou.


Agressividade

Antes de iniciar o ano olímpico, com patrocinadores de peso e mais de R$ 2,5 milhões em premiação no circuito profissional, Teliana decidiu que participaria apenas de torneios WTA. Mas, as vitórias rarearam e abriram debates sobre o jogo da pernambucana, que se afastou do top 50. Para ela, o melhor está por vir.

Teliana Pereira
Foto: Cristiano Andujar

“Meu ponto forte é a regularidade e preciso melhorar a agressividade. Estamos trabalhando. Tenho 27 anos e vejo jogadoras no auge com 33, 34 anos. A Pennetta (italiana) que ganhou o último US Open. A Serena”, exemplifica a tenista, fazendo uma autocrítica. “O principal objetivo sempre foi manter a evolução. Preciso melhorar algumas coisas no meu jogo e cuidar da parte física para brigar de igual com as melhores.”

Em agosto, a número 1 do Brasil deve ser escolhida para representar o país na Olimpíada do Rio de Janeiro. Disputará, obviamente, o torneio de simples, mas é provável que participe das duplas mistas ao lado de Marcelo Melo ou Bruno Soares, dois dos melhores duplistas do planeta. O sonho da medalha passa por aí.

Não é possível projetar se Teliana dará nova volta por cima ou se surpreenderá no Rio de Janeiro, mas o passado joga ao seu lado. É bom não duvidar da tenista que já fez história pelo Brasil.


“Com meus resultados, as mais novas passaram a acreditar que é possível.”

Mais importante do que ter uma Teliana, o tênis brasileiro necessita de novas “Telianas” para o desenvolvimento da modalidade. Ao menos, a pernambucana já deixou um legado e planeja ajudar na captação de novos talentos no futuro.

Teliana Pereira
Foto: Cristiano Andujar

“Acredito que o tênis feminino está melhorando por aqui. Com meus resultados, sinto que as mais novas passaram a acreditar que é possível chegar também, basta trabalhar duro e ter perseverança. Quando eu parar de jogar, penso em ajudar de alguma forma. Com clínicas, palestras ou até coordenando”, revela a número 1 do Brasil e 90ª no ranking da WTA.

Cuidadosa nas palavras, a atleta preferiu não opinar sobre a projeção do ex-tenista Fernando Meligeni, que em entrevista na última edição da WINNER disse que muitos jovens vão abandonar o circuito pela falta de apoio de dirigentes e até pela alta do dólar. “Como estou jogando e viajando bastante, não tenho tempo de acompanhar”, esquivou-se Teliana.

Teliana Pereira
Foto: Cristiano Andujar

A reportagem também não pôde deixar de indagar a tenista sobre declarações polêmicas do sérvio Novak Djokovic, que chegou a dizer que os homens deveriam ter premiação maior do que as mulheres. “Para mim, a premiação deve ser igual. É claro que Federer, Nadal e Djokovic são as grandes estrelas, e todo mundo ligado ao esporte deveria agradecê-los pelo que fizeram pelo tênis”, opinou. A despeito disso, a pernambucana garante que nunca sofreu preconceito na modalidade por ser mulher. “O tratamento é igual nos torneios e por parte da mídia. Nunca passei por situações machistas.”

Pela chave de simples de Roland Garros, a única vitória do Brasil foi conquistada por Teliana. A tenista só parou na número 1, Serena Williams.

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