Aos 44 anos, ex-jogador é um dos poucos que se posiciona a respeito dos problemas do tênis brasileiro e paga o preço: “Pessoas contestadoras estão fora do sistema”

Fernando-Meligeni-entrevistaA entrevista nem havia começado, mas a correção no instante em que o repórter dizia o que seria abordado na conversa ilustra a importância que Fernando Meligeni ainda tem para o tênis brasileiro.

“Fininho, nós vamos falar sobre a situação atual, que eu sei que você gosta.”. Antes que eu completasse o raciocínio, ele interrompeu. “Gostar eu não gosto, mas tenho que falar e sou o único que faz isso. Ninguém gosta de ser crítico. Adoraria poder dizer coisas boas, mas infelizmente tenho todas as informações. Sobrinhos jogando no juvenil, sou padrinho de casamento de todos os brasileiros que estão no circuito hoje e aí você vê que não dá”, lamenta.

Em quase uma hora de bate-papo com a REVISTA WINNER, o ex-tenista cobrou diálogo das pessoas com poder de influência na modalidade. Cerca de 13 anos depois de ter se aposentado, Fininho lamenta por não conseguir ajudar o tênis como deseja, pelo simples fato de ser ignorado pelos dirigentes. Sequer recebeu convite para o evento-teste que inaugurou o Centro Olímpico de Tênis, em dezembro, no Rio de Janeiro. Uma clara retaliação.

Homenagem Fernando Meligeni - Rio Open
Foto: João Pires / Fotojump

“Se eu morrer hoje, a frustração que terei é de as pessoas não terem aberto as portas. Poderia ter ajudado muito mais, mas é a realidade da política mundial. Pessoas contestadoras estão fora do sistema, aquelas que são cordeirinhos ou compradas, dentro do sistema. Durmo tranquilo, mas durmo sozinho”, diz.

Mesmo sem retorno, o brasileiro não desiste. A briga, como ele próprio diz, é relacionada ao destino da verba para a modalidade. “Não estou indo atrás se roubam ou não, e sim quanto tem e quanto pode se investir em cada um dos segmentos do tênis, que não é só o juvenil e o profissional. Vejo que não há uma linha, do tipo: Vamos dar um valor para tal segmento por causa disso. Posso discutir, dizer que não concordo? Vamos debater? Essa é a grande briga. Aí fica o eu sou político e vocês calam a boca”, desabafa Meligeni, que atualmente é comentarista da ESPN.  “Meu sonho era juntar todos os desgraçados que brigam no tênis brasileiro dentro de uma sala, todas as facções, e falar: A gente só sai desse lugar quando resolver os problemas do esporte. Mas sei que vai sair da sala e vai continuar a mesma coisa”, aposta, resignado.

Para Fininho, a solução passa por três palavras com ligação direta: organização, quantidade e qualidade. “Da quantidade, e bem trabalhada, sai a qualidade. A Argentina (país onde ele nasceu) é melhor do que nós porque tem mais gente que joga lá e a modalidade é melhor tratada, há grande diferença entre os centros de treinamento. Fiquei lá dos 15 aos 18 anos. Tinha objetivo, planilha, acabava a semana e o técnico falava porque treinei bem ou mal e o que eu deveria mudar”, explicou o ex-jogador.

Se pudesse fazer algo, daria melhores condições para aqueles que já estão na estrada e destoando dos demais. Lembra que, desde o juvenil, há gastos elevados – com técnico, preparador físico, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista, além da passagem aérea, estadia e alimentação. “Poderia tirar esses gastos dos melhores. Sabemos que os patrocinadores dão muito dinheiro à CBT (Confederação Brasileira de Tênis), só que eu sou o único que falo e aí viro o chato.”

A situação dos tenistas se agravou recentemente com a alta do dólar, que pode até provocar uma debandada de atletas. Meligeni teme pelo pior. “Se o dólar não baixar e não tiver mais torneios no Brasil até julho, vamos perder 30, 40 meninos”, projeta o brasileiro. “Isso não é culpa da Confederação, claro, mas qual é o plano deles para lidar com isso?”, questiona.

Fernando-Meligeni
Foto: João Pires / Fotojump

O país respirou tênis em fevereiro com a realização de dois campeonatos organizados pela ATP, o Rio Open e o Brasil Open, mas a realidade é bem diferente. A vida cotidiana da modalidade volta ao normal em março, com torneios pouco atrativos e rentáveis. Para muitos talentos em potencial, perseverança se tornou a palavra de ordem para não largar as raquetes tão cedo.

“Alguém com mais garra? Meligeni disse que dois jogadores o superavam nesse aspecto: o austríado Thomas Muster e o espanhol Félix Mantilla. “Uma vez fiz oitavas de Roland Garros com o Muster. Eu morto em quadra e ele pulando, mostrando que eu era um coitado que estava cansado”, brinca


LEGADO

Há 20 anos, Fernando Meligeni ficou a uma vitória de subir no pódio nos Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta, nos Estados Unidos, ao cair duas vezes, na semifinal e na disputa do terceiro lugar. Três temporadas depois, em Roland Garros, avançou até a semifinal. Os dois torneios poderiam ter consagrado a carreira do brasileiro, admirado pelos torcedores pela garra apresentada em quadra.

“Não vou ser hipócrita, dizer que esses dois campeonatos não passam pela minha cabeça. A final de Roland Garros dói até mais do que a medalha olímpica. Mas, para quem chega nesse lugar uma vez na vida, a pressão é maior. O Guga, por exemplo, sabia que chegaria outras vezes. Eu não. Você sabe que é a última chance que vai ter, aí o braço treme, você tem medo, não vê o jogo com a clareza que precisa”, comenta Fininho, que poderia ter enfrentado Gustavo Kuerten no Grand Slam francês. “Na minha cabeça só existia uma chance de ganhar do Guga lá, que é como acontece na Fórmula 1. Com chuva, vento”, brinca.

Apesar dessas campanhas de um verdadeiro tenista top e dos três títulos de simples na ATP (Associação dos Tenistas Profissionais), o ex-jogador, hoje com 44 anos, afirma que o legado que deixará para o esporte é outro. “Acho que sou mais importante fora das quadras do que o que fiz como atleta. As pessoas me agradecem pela luta. Fico triste pelo pensamento pequeno de dirigente, de técnicos e atletas, por não reconhecerem isso”, avalia. Resumindo, Fernando Meligeni continua sendo um grande guerreiro do tênis nacional.


“O Bellucci vai ser mais respeitado quando encerrar a carreira”, DIZ MELIGENI

Fernando Meligeni escreve sobre tênis em um blog de sua autoria na ESPN. Nessa plataforma e nas próprias redes sociais, o ex-tenista consegue mensurar a opinião dos torcedores sobre o brasileiro Thomaz Bellucci, melhor do país na atualidade.

“Ele é um menino que tem uma mídia contra absurda. Se eu elogio, tomo pedrada, e se eu critico, tomo mundo solta rojão”, diz.

Para Fininho, as críticas sobre Bellucci são injustas e expõem uma característica do brasileiro quando o assunto é esporte. “Ele sofre com esse lado negativo, que é viver do passado, do Guga, do meu carisma, dos resultados da Maria Esther. Desculpa, mas cada jogador é um jogador”, opina. “A carreira que o Bellucci já fez… ele vai ser mais respeitado quando parar. As pessoas acham que nunca entreguei uma partida, que nunca perdi, que nunca fiz uma cagada. O cara é criticado quando joga e gênio quando para ou morre”, compara o ex-tenista.

Meligeni diz que o número 1 do Brasil tem algo em comum com ele e aposta que o melhor de Bellucci está por vir. “Fui semifinalista de Roland Garros com 29 anos, o amadurecimento dele, como o meu, não é tão precoce quanto o do Nadal. Ele está entendendo o circuito, parando de respeitar. Bellucci pode ser 15 do mundo, joga tênis pra caramba.”

Aliás, o comentário sobre Thomaz Bellucci é a deixa para que se fale das mudanças do tênis. Fininho revela uma história curiosa, de quando esteve in loco no US Open depois que largou a raquete profissionalmente. “Fui como comentarista da ESPN, aí vi o Berdych, o Del Potro e depois comentei com o narrador: ‘eu joguei isso? É muito rápido’”. Jogou, mas o jogo era outro em sua época.

“Mudou muito a característica da partida. Eu teria que me adaptar. A minha maneira de jogar não é compatível com o tênis atual, não estaria entre os 30 do mundo. Hoje você precisa ser mais agressivo, mas o tenista é um ser mutante, você vai percebendo que tem de mudar isso ou aquilo. O tênis está muito mais físico, era tático. Você fazia certinho e ganhava dos caras, de um Sampras, Agassi. Hoje você pode ir bem taticamente com o Djokovic, mas perde por 6-1/ 6-1”, comentou o ex-tenista, que chegou a ocupar a 25ª posição no ranking da ATP.

Para fininho, vai ser bem difícil para o Brasil faturar uma medalha na Olimpíada do Rio de Janeiro, mesmo com a dupla Bruno Soares e Marcelo Melo – dois dos melhores do mundo. O problema é que os craques de simples costumam jogar duplas nesse evento, aí o nível muda e a concorrência aumenta bastante

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