De volta ao Ibirapuera, único torneio de nível ATP realizado em São Paulo agrada público, mas ainda pode ser melhor aproveitado

Brasil-Open-2018
Foto: Rodrigo Rocha

A história do menino Luca Banzato com o Brasil Open é um exemplo de onde queremos chegar com essa matéria. Com apenas 10 anos, ele joga tênis e começou a competir faz pouco tempo. Pensando em motivar o garoto, o tio Dalton Teixeira Filho resolveu levá-lo ao Ibirapuera. Chegando ao complexo, de carro, logo avistaram o francês Gael Monfils, estrela e garoto-propaganda do ATP 250. Luca recebeu o tão almejado autógrafo. O jovem se empolgou com tudo aquilo, aprendeu e curtiu cada ponto dos jogos que assistiu, mas antes de ir embora precisou de paciência para pegar uma assinatura de Fabio Fognini. A espera levou uma hora. Não bastasse isso, as pessoas que trabalhavam no torneio não sabiam dizer se o italiano ainda estava nos vestiários ou se já tinha partido.

Brasil-Open-2018
Foto: DGW Comunicação

“Na verdade, não tinha organização para chegar nos jogadores. Andando pela parte externa vimos por onde eles entravam e saiam (tenistas) e ficamos por ali esperando. Os autógrafos foram na sorte e na raça”, explicou Dalton. A despeito das informações desencontradas, a experiência no Ibirapuera fortaleceu os sonhos de Luca. “Ele está motivado, viu até onde pode ir (na carreira) com muito esforço, treino e dedicação”, garantiu o tio, que também dá suas raquetadas. “Valeu todo o evento para mim, ele assistindo os jogos, perguntando, comentando. A alegria dele não teve preço.”

Na condição de um esporte, o tênis carrega um aspecto emocional que dá a um torneio do nível do Brasil Open – único desse porte realizado em São Paulo – a oportunidade de fidelizar uma criança igual ao Luca, de conquistar novos amantes para a modalidade. Porém, pela falta de uma divulgação mais agressiva e de comunicação com o próprio público presente, as chances se perdem. Não fica o legado e olha que tivemos um caso recente com a arena do tênis nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Na sua 18ª edição, o evento voltou ao complexo do Ibirapuera depois de passagem pelo Pinheiros. A mudança agradou ao público, vide os números, mas não escapou das críticas dos jogadores e de falhas na organização. São qualidades ou problemas que muitas vezes se refletem na realidade do tênis no país, como a ausência de um lugar ideal para se fazer campeonatos na cidade. Apesar de ser de fácil localização, o Brasil Open só teve duas quadras cobertas de jogo, além de mais três para treinos e duas de aquecimento.

Publicamente, os tenistas reclamaram da escassez de opções para treinamento e ainda não gostaram das poucas quadras disponibilizadas pelos organizadores. Conforme a reportagem apurou, o uruguaio Pablo Cuevas, tricampeão em São Paulo, e o português Gastão Elias tiveram que se preparar na Hebraica. Segundo admitiu o diretor do torneio brasileiro, Roberto Marcher, não foi fácil tirar o ATP 250 de um local privado para um estatal. Lembrou das dificuldades em fazer a programação com apenas duas quadras reservadas para jogos, mas se defendeu: “acho que nossas quadras de treino são boas e super adequadas”.

Brasil-Open-2018
Foto: DGW Comunicação

A divulgação também poderia ter sido melhor. As pessoas que transitavam pela região do Ibirapuera, seja de automóvel ou a pé, só tiveram a certeza que alguns dos principais tenistas do mundo estavam por ali ao passar pela entrada principal do ginásio. Não havia sinalização nas cercanias. Falha, aliás, que se estendeu para dentro do torneio, com confusão em informar onde era a sala de imprensa. A quadra 1 ficou praticamente escondida do público e a reportagem sofreu para encontrá-la. É aí que entra outra oportunidade desperdiçada de massificar o tênis entre os jovens. A maioria sequer teve conhecimento dos aquecimentos abertos de Monfils naquela quadra – um deles, inclusive, teve direito à música e “dancinhas” do francês.

No palco principal do Ibirapuera, o ginásio que comporta cerca de 10 mil pessoas, não houve controle do acesso do público ao setor inferior. Mesmo com ingressos para a arquibancada superior (o ticket mais barato para o campeonato), o telespectador conseguia ter entrada liberada ao lugar que tem visão próxima dos tenistas. Os seguranças permitiam o acesso sem pedir o bilhete. O calor também atrapalhou, a organização poderia ter colocado climatizadores para amenizar a situação.

Brasil Open 2018
Foto: DGW Comunicação

“Foi o melhor Brasil Open de todos. Foi um baita público, só perdemos para quando veio o Nadal. Mesmo sem ter brasileiros no fim de semana. Isso demonstra a evolução do tênis no país. O brasileiro gosta de tênis, entende um pouco mais do esporte”.

Roberto Marcher, dir. do Brasil Open


Pontos positivos

Se no Pinheiros havia poucas opções de alimentação e filas enormes se formavam para comprar cerveja, o evento no Ibirapuera se destacou nesse ponto. A variedade foi enorme, tanto que os torcedores davam a volta inteira no complexo para escolher o que comer, entre lanches, doces e até comida japonesa. O público ainda pôde participar de atividades interativas, levando brindes para casa.

A participação e presença dos telespectadores também merecem uma menção honrosa, já que o Brasil Open só ficou atrás da edição de 2013 em relação ao número de pessoas que acompanharam os jogos – vale citar, porém, que as cadeiras só começaram a ficar cheias na quinta-feira. O preço da entrada contribuiu para a alavancada nos números.

“Gostei muito. O universo do tênis por si só já é fascinante e quando temos a chance de ver Monfils, Fognini, Cuevas, entre outros, não podemos deixar passar. Além, claro, de torcer pelos brasileiros. O evento foi ótimo. Muito organizado, preços acessíveis e eventos muito legais na parte externa”, opinou o representante comercial Anderson Vito, que saiu do ABC para acompanhar o torneio, inclusive a final.

E seria injusto não elogiar a iniciativa do Brasil Open em trazer o capitão da Argentina na Copa Davis, Daniel Orsanic, para clínica com jovens e um workshop com treinadores. Fora isso, o tradicional Kids Day fez parte da programação, reunindo 250 crianças (leia mais na página 16). No fim da atividade, Thomaz Bellucci e André Sá apareceram de surpresa para conversar, tirar fotos e distribuir autógrafos para os pequenos.


A Despedida

Despedida de André Sá
Foto: Marcello Zambrana / DGW Comunicação

Depois de ter salvado a participação brasileira em 2017, com o título em duplas no Pinheiros, André Sá se despediu do tênis no Ibirapuera. Curiosamente, a homenagem em São Paulo veio antes do jogo em que culminou na sua aposentadoria. Logo na sequência da derrota, a ATP publicou vídeo homenageando o veterano, com direito a depoimento do tenista Rafael Nadal. Sá venceu 11 títulos na ATP e chegou às quartas de final em simples em Wimbledon, em 2012. Foi o único tenista nacional a disputar quatro edições das Olimpíadas. Agora, segue no tênis na função de treinador de Thomaz Bellucci e recebeu cargo da Federação Internacional de Tênis (ITF) para intermediar as relações entre jogadores e a entidade. Fazer aparições esporádicas no circuito, como faz o australiano Ll eyon Hewitt? Nem pensar, ele assegura que a chance é zero.

“Tudo foi no momento certo. Estou feliz de ter parado por decisão minha. Tinha condições fisicamente e tecnicamente de continuar. O momento agora é de encerrar um capítulo e começar um novo.”


NÚMEROS DO BRASIL OPEN DE 2018

•    42.548 espectadores (capacidade do Ginásio do Ibirapuera: 9.000);

•    5.184 bolas Wilson utilizadas pela organização;

•    630 toalhas utilizadas pelos jogadores;

•    22 mil garrafas de água;

•    12.600 kg de gelo;

•    1.200 garrafas de isotônicos fornecidas aos jogadores;

•    5.000 refeições para jogadores e staff;

•    22 países representados: Alemanha, Argentina, Áustria, Belarus, Brasil, Chile, Croácia, Espanha, Estados Unidos, Equador, França, Holanda, Itália, Mônaco, Nova Zelândia, Peru, Portugal, República Dominicana, República Tcheca, Rússia, Sérvia e Uruguai;

•    54 jogos (27 simples chave principal, 15 de duplas, 12 de qualifying);

•    56 jogadores no total;

•    52 árbitros (1 supervisor, 1 referee, 1 referee do qualifying, 2 chiefs, 7 árbitros de cadeira e 40 juízes de linha); •    20 boleiros e 1 chefe de boleiros;

•    Mais de 40 horas de transmissão na Fox Sports 2. Bandsports, TV Gazeta e TV Brasil;

•    57 veículos e 163 jornalistas credenciados;

•    US$ 582,870 de premiação (cerca de R$ 1,8 milhão). O campeão de simples Fabio Fognini levou US$ 92.085 (cerca de R$ 302 mil).

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