Integrante da equipe de Bia Haddad, Ricardo Diaz Savoldelli explica a importância da especialidade médica no tênis

Há poucas publicações sobre fisiatria específicas no tênis. A afirmação é de Ricardo Diaz Savoldelli, uma das referências nessa especialidade médica no Brasil. Para transmitir o conhecimento, uma das principais propostas da Winner ABC desde o início, entrevistamos o médico para apresentar material que se aprofunda no tema.

Savoldelli, que trabalha com a brasileira Beatriz Haddad Maia, Teliana Pereira, Bruno Soares e Marcelo Melo, ressaltou a importância de se olhar o atleta como um todo na prevenção, diagnóstico ou tratamento de problemas físicos. “Não basta saber tratar uma dor no ombro; precisamos entender por que o ombro está doendo e como os movimentos do tênis estão relacionados com essa alteração”, pontua o fisiatra, acrescentando que esse profissional deve ser um elo entre a equipe de saúde, equipe técnica e o atleta. Para ele, o melhor resultado só aparece por meio de um trabalho integrado de especialistas. Leia mais:

Como você define a fisiatria? Sabemos que ela se diferencia da ortopedia. Um profissional dessa área não faz cirurgias, correto?

A fisiatria ou medicina física e reabilitação é a especialidade médica responsável pela prevenção, diagnóstico e tratamento de distúrbios que levam a alguma incapacidade. Somos os médicos do movimento e da função.

Portanto, pacientes com pequenas incapacidades (por exemplo, pacientes com dor na coluna por hérnia de disco, tendinopatias de ombro, pós-operatório de ligamento cruzado anterior) ou grandes incapacidades (pacientes com hemiplegia após AVC, também conhecido como derrame, amputados, paraplégicos, pacientes oncológicos) podem ser acompanhados pelo fisiatra e se beneficiar do nosso trabalho.

No caso específico da prática esportiva, atletas amadores e profissionais que buscam um trabalho de prevenção de lesões, que possuem alguma alteração que prejudique à prática do esporte ou ainda que diminua sua performance podem e devem ser acompanhados pelo fisiatra.

Não fazemos cirurgias, mas realizamos procedimentos pouco invasivos se necessário, porém, o principal é que “falamos a mesma língua” dos fisioterapeutas, preparadores físicos e trabalhamos em equipe para obter o melhor resultado com o atleta.

Ricardo, qual é a peculiaridade desse trabalho do fisiatra especificamente com o tênis? Como é realizado? O que difere nos procedimentos em relação a outros esportes?

Acho importante ressaltar que o fisiatra tem uma visão mais abrangente do paciente/atleta e isso no tênis é essencial. Não basta saber tratar uma dor no ombro; precisamos entender por que o ombro do tenista está doendo e como os movimentos do tênis estão relacionados com essa alteração. Muitas vezes, o que está causando uma dor no ombro é uma falha na rotação do tronco ao realizar o forehand e se não corrigirmos o movimento, o ombro pode até melhorar momentaneamente, mas vai voltar a doer.

Vejo o papel do fisiatra como um “case manager”, um gerenciador do processo de prevenção ou reabilitação de uma lesão no tenista. O fisiatra pode ser um elo entre a equipe de saúde (fisioterapeuta, preparador físico, outras especialidades médicas como ortopedia, cardiologia, medicina do esporte) a equipe técnica (treinador) e o atleta.

O diferencial para outros esportes é que o fisiatra que trabalha com tênis tem que conhecer a biomecânica do esporte, o gesto esportivo, as principais lesões no tenista amador e profissional, como preveni-las e tratá-las.

O tênis é um esporte bem característico por ser de alta intensidade e intervalado, com gestos bem específicos e isso é diferente dos outros esportes. Além disso, o tenista é um atleta bem “assimétrico”, ou seja, em linhas gerais, o lado dominante (que segura a raquete) possui um desenvolvimento muscular, ósseo e tendíneo diferente do lado contralateral pelos golpes com a raquete e o esforço realizado nos treinos e jogos. Encontrar um equilíbrio articular e de movimento dentro dessa assimetria é um desafio que nenhum outro esporte apresenta.

Os fisiatras trabalham com músculos e movimentos e aí estamos falando de dois aspectos fundamentais no tênis. Fale sobre isso, de que maneira esse profissional busca deixar os jogadores em boas condições?

Esse trabalho vai depender sempre das características do tenista e seus objetivos. O trabalho deve ser sempre personalizado. Nunca vão existir dois trabalhos iguais e isso que é o mais apaixonante nessa área. Então por exemplo: o trabalho para deixar um atleta juvenil na fase de transição que vai disputar um Grand Slam da categoria é bem diferente de um trabalho com uma atleta de 60 anos que quer jogar seu campeonato no clube.

De qualquer maneira, enfatizo sempre a importância do trabalho em equipe. Um fisiatra sozinho não terá o mesmo impacto na vida do tenista, assim como um fisioterapeuta ou um preparador físico trabalhando sós não vão ter, portanto deixar o tenista em boas condições depende dessa interdisciplinaridade. E quanto mais “profissional” for o atleta, mais complexa deve ser esta equipe.

Mas o conceito básico é tentar avaliar os objetivos do tenista, suas capacidades, suas deficiências e tentar trazer um equilíbrio articular e de movimentos, aliado à potência, agilidade, resistência e intensidade. Fácil? Com certeza não… mas é muito possível, desde que feito da maneira correta.

De que forma a fisiatria pode ajudar um tenista, seja ele amador ou profissional?

O atleta amador, o juvenil, aqueles que estão na fase de transição, o jovem que quer ir ao College ou o profissional contam com o fisiatra para atingir seus objetivos: desde não se lesionar, ter o melhor acompanhamento para tratar esta lesão e poder melhorar sua performance dentro de quadra.

O fisiatra trabalha em um sistema de integração de especialidades, junto de outros profissionais. Quais os riscos de se fazer um trabalho individualizado, que não seja em conjunto com outros profissionais?

Vejo dois grandes problemas de “compartimentalizar” o tenista:

O primeiro é quando compartimentamos o trabalho dos membros da equipe interdisciplinar e não há troca de informações ou trabalho em conjunto se perde tempo, eficiência e eficácia no tratamento ou na prevenção das lesões. Comparo a um barco: se cada um remar para um lado, o barco não sai do lugar. Se tivermos uma coerência, uma sinergia e trabalharmos em conjunto, as características e capacidades dos profissionais se multiplicam e o trabalho flui muito melhor, é muito mais efetivo e todos saem ganhando, principalmente o atleta.

O segundo problema é quando compartimentamos o atleta e começamos a tratar o sintoma e não o tenista. Com isso se perde uma visão geral. Por exemplo, um caso que estou acompanhando de um tenista que estava com dor no joelho e foi avaliado por três ultra especialistas na referida articulação e não melhorava. A dor era no joelho, mas o problema era um desequilíbrio pélvico que sobrecarregava o joelho e uma alteração na ativação da musculatura da coxa na hora do forehand. Neste caso, ele não melhorava, pois o foco estava apenas no joelho. Quando começamos a tratar o desequilíbrio pélvico e a ativação correta da musculatura do gesto esportivo, ele melhorou e voltou aos treinos e a disputar campeonatos.

Como a tecnologia tem ajudado no desenvolvimento da fisiatria?

Antes de mais nada, gostaria de salientar que a tecnologia é um meio complementar. Nada substitui uma boa anamnese (conversa do profissional de saúde com o tenista) e um bom exame físico. Contudo, a tecnologia auxilia na avaliação objetiva do gesto esportivo e na atividade e função do aparelho motor.

Alguns exemplos são os equipamentos de avaliação isocinéticas que avaliam o desempenho muscular, os aparelhos de eletromiografia de superfície e o biofeedback que nos ajudam a avaliar a ativação muscular.

Mas hoje, o que tenho utilizado muito e acredito que seja o presente da avaliação do gesto esportivo e se tornará cada vez mais comum no futuro é a avaliação biomecânica 3D do movimento, no qual colocamos marcadores em pontos específicos das articulações e na raquete, câmeras especiais captam o posicionamento destes pontos, passam os dados para um software que compila os dados e nos dá informações com uma precisão incrível (submilimétrica) do posicionamento e do movimento das articulações, raquete, braços, tronco, pelve, pernas e pés. Em conjunto, utilizamos a eletroneuromiografia de superfície para avaliar a ativação muscular. Com isso temos dados incríveis para poder identificar padrões de movimentos que levam ou poderiam levar a alguma lesão em qualquer movimento do tênis.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor deixe seu comentário!
Por favor preencha seu nome