Doença que atinge quase 12 milhões de brasileiros também está presente no tênis, modalidade em que o atleta fica mais vulnerável

Diante do componente de cobranças públicas e necessidade de resultados, a depressão enraizou-se no esporte e não é de hoje. No tênis nacional, o sinal de alerta acendeu depois que vieram à tona os casos de Marcelo Zormann e Igor Marcondes, promessas da modalidade. Os dois foram vítimas da doença, que tem uma espécie de predisposição para se disseminar no tênis.

“Por ser um jogo solitário e com pouca comunicação durante a partida pelas normas disciplinares, com privação do contato entre técnico e atletas, o tênis está entre os esportes que podem desencadear estados depressivos pelo fato de o jogador ficar vulnerável aos seus próprios pensamentos, que são destrutíveis e muitas vezes vemos o tenista se auto sabotando, se xingando ou até mesmo quebrando a raquete”, explica Heitor Cozza, referência no tema e com experiência na modalidade.

Segundo o doutor em neuropsicologia e psicologia do esporte, o segredo para evitar as armadilhas que afetam quase 12 milhões de brasileiros, diversos no esporte, é trabalhar justamente o controle do pensamento automático – por meio de técnicas passadas por especialistas.

“As técnicas de treinamento psicológico ajudam para que o tenista tenha o foco de atenção exclusiva no adversário, para se manter no momento presente de forma total, sem pensar no próximo game ou set”, argumenta Cozza, que atende atletas da modalidade na Juninho Tennis, no Paulistano e no Pinheiros. É comum, principalmente entre os tenistas em formação, a velha história de “remoer” os erros do passado, que influenciam até na concentração em rallys longos. 

Campeão de Wimbledon no juvenil, Marcelo Zormann se afastou do tênis competitivo há cerca de um ano. Depois de não alcançar metas que tinha no esporte, enxergava a dura rotina de treinos como uma obrigação. Muitas vezes sozinho, situação inerente à modalidade, descobriu que estava com depressão ao se abrir para familiares e especialistas.

Foto: João Pires / Fotojump

“Para ser grande no tênis há todo um processo. Você tem que buscar seu melhor nível nos jogos e, ao mesmo tempo, tem a pressão de vencer pela vitória e pelo dinheiro. Então, é uma linha muito tênue onde você tem que acreditar demais em si próprio, que está no caminho correto para chegar onde deseja”, aconselhou o tenista, em entrevista à Winner ABC. “Uma outra dica que é confiar muito nas pessoas que trabalham com você, acreditar e tentar de alguma forma aproveitar o processo.

“O mais importante é aceitar e enfrentar esse problema que é muito difícil de lidar, mas que também é mais comum do que imaginamos”

O perigo do bornout

Com vivência no tênis competitivo, Heitor Cozza alerta para o bornout na fase de formação, que é um dos últimos estágios antes da depressão. “Alguns técnicos colocam a criança em um patamar de desenvolvimento psicológico e fisiológico sem respeitar a maturação, que pode gerar uma sequência de treinamentos acentuados que causam o estresse e, posteriormente, o estado de bornout (esgotamento total)”, lamenta o psicólogo, citando o exemplo como uma das variáveis que pode gerar a depressão e até a desistência da carreira, entre outras.

Se descoberta no início, a depressão é possível de ser controlada ou suprimida com o auxílio de um profissional da área. Esse especialista costuma trabalhar com ações de aconselhamento em consultas. Se não houver melhora depois de seis sessões, o tenista é encaminhado ao psicólogo. A depressão em grau maior necessita de medicamentos, além de se indicar o afastamento do esporte em alto rendimento.

Zormann diz que ainda está superando a depressão com terapia e remédios. Recentemente, exerceu a função de jornalista no challenger de Campinas e em outros torneios importantes no país convidado pelo Instituto Sports. Gostou tanto que voltou a sentir saudades do tênis e cogita o regresso em 2020. Por enquanto, dá aulas para matar um pouco da vontade.

“O mais importante é aceitar e enfrentar esse problema que é algo muito difícil de lidar, mas que também é muito mais comum do que imaginamos”. Esse jogo ele está vencendo.

Cuidado com a ansiedade

Pioneiro na Medicina do Estilo de Vida no Brasil, o doutor Fábio César dos Santos apresenta outro viés importante ao enfatizar que a depressão pode ter origem na ansiedade. “Apesar de toda a alegria no Brasil, somos campeões mundiais de ansiedade. Costumo falar que o ansioso de hoje é o depressivo de amanhã e o demente do futuro. A ansiedade começa a inflamar o cérebro, que, ansioso, pode causar a perda de cognição”, descreve.

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